índia Txai Suruí
Quais são as necessidades humanas básicas? No quê fundamenta-se nosso bem-estar? Onde abundam ou rareiam as oportunidades de estudo e trabalho essenciais para todos os brasileiros?
Por quê o sucesso de Lula lá fora não consegue virar atestado de justiça social e anda levando cada vez mais água, ironicamente, para o moinho da vanguarda do atraso?
Acaba de sair um estudo devastador sobre todos os 5.570 municípios, no qual são enquadradas como "dimensões" as três perguntas acima.
Chama-se Indicadores de Progresso Social (IPS, link abaixo) e é impiedoso com nossas perdidas ilusões: nem daqui a outros 500 anos a riqueza do Sul vai se espraiar pelo sertão nordestino ou alagar a Amazônia despedaçada.
Aos fatos e aos números, e depois aos porquês:
- Entre as 10 piores capitais do Brasil, estão as seis do Norte - Belém, Boa Vista, Macapá, Manaus, Rio Branco e Porto Velho, a pior do Brasil.
- Entre os 27 Estados, todos os seis da Região Norte - Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima -estão entre os 10 piores para se viver, com base nas "dimensões" que balizaram o "nationwide survey".
3 - Dos 10 melhores Estados brasileiros, nem um fica no Norte ou no Nordeste. Naturalmente, o DF é o 1º, único 0,73 acima de 70 pontos.
4 - Bem abaixo, Goiás fica em 6º (64,52 pontos) e o Mato Grosso do Sul em 7º (64,14 pontos) - e é só para o Centro-Oeste.
5 - Com 67,96 a 63,39 pontos, os outros sete Estados com qualidade de vida decente para o povo são, pela ordem, SP, SC, PR, MG, ES, RS e RJ.
- Longe dos 62,39 pontos da Paraíba (11ª), Rondônia despenca para 58,60 pontos, a 23ª posição, à frente apenas do AP, AC, MA e PA.
Há mais: quando comparamos os 10 maiores municípios de Rondônia em termos de Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas produzidas em um ano fiscal), População Economicamente Ativa (PEA, faixa etária apta ao trabalho 6 x 1, sem distinção de raça ou gênero), IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), LOA (Lei Orçamentária Anual (receitas próprias, royalties do Complexo do Madeira, transferências obrigatórias e voluntárias de dinheiro grosso do OGU - Orçamento-Geral da União autorizadas pelo Tesouro Nacional e as fantasmagóricas emendas parlamentares e de bancada, as famosas "fifty-to-fifty"), todos parâmetros macroeconômicos estritos, com a colocação destes mesmos 10 municípios no ranking do IPS - bom, aí é melhor continuar amanhã.
P.S. As dimensões da pesquisa do IPS não levam em conta este economês mais enjoado que m... em sapato. Elas se limitaram a passar a régua em doze coisas simples: Nutrição e Cuidados Médicos Básicos, Água e Saneamento; Moradia; Segurança Pessoal; Acesso ao Conhecimento Básico; Acesso a Informação e Comunicação; Saúde e Bem-Estar; Qualidade do Meio-Ambiente; Direitos Individuais; Liberdades de Escolha; Inclusão Social e Acesso ao Ensino Superior.
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E QUEM SÃO OS COMUNISTAS POR TRÁS DESSE TAL DE "IPS"?
Atualizado anualmente com estrita base em bancos de dados públicos (Sidra/IBGE, DataSUS, InfoSUS), o IPS vem à luz numa parceria entre cinco instituições de renome: Imazon, Fundación Aviña, Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), Climate Policy Initiative/PUC-RJ (Projeto Amazônia 2030) e Social Progress Imperative (SPI).
Fundado há 35 anos, o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) desenvolve estudos científicos e planos de manejo, publica artigos em órgãos especializados e tem na sua direção nomes como Márcia Hirota, vice-presidente da Fundação S.O.S. Mata Atlântica, André Guimarães, diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisas da Amazônia), e Estêvão Ciavatta, cineasta fundador da Pindorama Filmes, primeira produtora brasileira a obter o selo Carbono Zero, certificado de que compensou todos GEEs (gases do efeito estufa) provenientes de sua atividade cinematográfica como a queima de combustíveis fósseis. Diretor de "Amazônia Sociedade Anônima", montanhista, co-autor de samba-enredo, é ativista histórico pela preservação do meio-ambiente. Mas lá quem manda hoje são Ritaumaria Pereira e Verônica Oki.
Criada em 1994 pelo empresário suíço Stephan Schmidheiny, a hoje Fundación Aviña (termo de origem hispano-germânica que designa força e persistência) é uma instituição latinoamericana dirigida "worldwide" por Gabriel Baracatt e Valeria Scorza.
"La Aviña" está formalmente instituída em vários países da América do Sul desde 2001 - sua sede no Brasil fica em Belém do Pará -, e tem o declarado objetivo de financiar projetos que promovam o desenvolvimento autossustentável da região amazônica. Aqui, quem fala por ela é Txai Paiter Suruí, que fundou o Movimento Juventude RO.
Também de Belém, e via a bússola de Beto Veríssimo, co-fundador da Imazon com Estêvão Ciavatta, irradia-se a incessante atividade de captação de recursos, interconexão de empreendedores, comunidades, investidores e mercado a cargo do Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA).
Beto, Paulo Barreto, Christopher Uhl, David McGrath e Paraguassu Eleres resumem mais ou menos assim sua missão: criar e dar escala a negócios autossustentáveis que gerem renda a partir dos insumos, recursos e saberes locais e regionais.
Exemplos: corria 2017 e, em Capitão Poço (PA), transformava-se à mão e mó cascas de laranja em biofertilizantes a granel. Desde 2021, a Bioforte exporta seu produto nos formatos líquido e sólido, com a respectiva biotecnologia agregada. Na capital paraense, a ArteAmazonida produzia artesanalmente adornos e acessórios com sementes e hoje faz arte plumária, como mostrou na COP 30, de novo em "Bethlem-du-Parrá".
As palavras-chave do "think tank", como se autodefinem no 'quem somos' são biotecnologia, sociobiodiversidade, turismo de base comunitária e articulação de ecossistemas econômicos à base de açaí, castanha, copaíba, óleos essenciais. Fundação Itaú, Fundo Hydro, Fundação Roberto Marinho, Good Energies by Porticus são algumas das marcas que figuram como "stakeholders" de seu conselho fiscal.
Com integral apoio da reitoria da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o Projeto Amazônia 2030 infiltrou-se entre as ferramentas do Climate Policy Initiative, concebido por Thomas Heller e Barbara Buchner em 2009 e adotado no Brasil pelos professores e pesquisadores daquela instituição de ensino superior privada para acompanhar tendências, apoiar o planejamento e a eficácia na avaliação de políticas públicas e a eficiência no direcionamento de investimentos públicos que visam o progresso social em suas três "dimensões".
Todas as entidades descritas são vigas-mestras do esforço transnacional para superar o subdesenvolvimento, a fome, o racismo e o preconceito contra os povos indígenas autóctones e sua cultura, ambos diuturnamente em risco de extinção e extermínio, dos uru-eu-wau-wau da Serra da Onça em Rondônia aos krahan-kahnel, progênie do tronco Macro-Jê dos povos Timbira.
Destes, fica o registro, restam hoje apenas 122 indivíduos na Terra Indígena Mata Alagada (Aldeia Lankrahé), no município de Lagoa da Confusão, a 300 km de Palmas (TO), depois de terem sido expulsos em 1970 de sua terra de origem, o cerrado, por capangas armados de rifles de repetição a serviço dos então donos da cervejaria Brahma, episódio que rendeu uma capa de "O Cruzeiro", texto de David Nasser e fotos de Jean Manzon para a jóia dos Diários Associados de Assis Chateaubriand.
Imazon, AviñaCEA, PUC-RJ - todos operam sob o olhar vigilante da Social Progress Imperative (SPI), entidade supranacional que se dedica desde 1990 a monitorar a evolução global dos índices de progresso social em 170 países, especificamente com base nos 15 Objetivos Globais definidos na COP 20, com apoio de parceiros como Deloitte, CE, Habitat for Humanity, National League of Cities, City of Philadelphia, AngloAmerican e European Youth Forum.
Coisa de comunista, né? Ou alguém aí farejou dinheiro grosso?
COMO FUNCIONA?
Cada indicador é submetido a validação e modelagem estatística, incluindo normalização, verificação de qualidade e definição de pesos por meio da Análise de Componentes Principais (ACP). A variação de 0 a 100 reflete o desempenho nas três dimensões do progresso social.
Diferentemente de indicadores econômicos como o PIB e o IDH, o IPS mede diretamente resultados na vida da população, permitindo identificar desigualdades e comparar territórios de forma mais precisa.
Municípios com níveis semelhantes de renda apresentam desempenhos muito distintos em qualidade de vida, o que reforça o papel das políticas públicas e da gestão na transformação de recursos em bem-estar.
O estudo classifica os municípios brasileiros em nove grupos de desempenho, representados no mapa nacional por diferentes tonalidades.
O Grupo 1, com melhores resultados, reúne 706 municípios, enquanto o Grupo 9, com piores desempenhos, concentra apenas 23 municípios.
Entre 2025 e 2026, 754 municípios avançaram para grupos de melhor desempenho, enquanto o número de cidades nas faixas mais baixas foi reduzido em 500 municípios, indicando mudanças importantes na distribuição do progresso social no país.
Foto: Vitória Leona/Imazon Images
O grupo com melhores resultados concentra a maioria das capitais e grande parte dos municípios mais populosos, com mais de 200 mil habitantes. Já os municípios com piores desempenhos tendem a apresentar baixa densidade demográfica e maior distância dos grandes centros urbanos.
Pink Floyd
Links:
https://ipsbrasil.org.br/noticias/artigos/4ed8dfaa-a31d-487b-a4a3-692bb7070d05
https://imazon.org.br/about?tab=quem_somos&locale=pt_BR
https://www.climatepolicyinitiative.org/pt-br/programas/amazonia-2030/
https://www.socialprogress.org/about-us
Fonte/Créditos: Carlos Macena
Créditos (Imagem de capa): Foto: Vitória Leona/Imazon Images

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