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PORTO VELHO, RO - Talvez nenhum assunto ligado às eleições de 2026 tenha potencial para produzir consequências tão prolongadas sobre Rondônia quanto a concessão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário atualmente vinculados à Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia. Governadores serão eleitos e deixarão o cargo, deputados concluirão mandatos, alianças serão desfeitas e partidos mudarão de posição. O contrato, entretanto, poderá permanecer em vigor por 35 anos.
O processo autorizado pelo Governo de Rondônia envolve 40 municípios e possui valor estimado em aproximadamente R$ 8,47 bilhões. A entrega das propostas está prevista para 22 de setembro de 2026, enquanto o leilão foi marcado para 29 de setembro, na sede da B3, em São Paulo. Embora ainda não exista empresa vencedora nem contrato definitivo assinado, a licitação já está em andamento e se aproxima de uma etapa capaz de produzir obrigações que atravessarão sucessivos governos estaduais e administrações municipais. O prosseguimento do projeto foi autorizado pelo Colegiado Microrregional em reunião realizada em 19 de junho, conforme publicação oficial do Governo de Rondônia.
Não se trata, portanto, de uma decisão administrativa corriqueira. A concessão transfere à iniciativa privada a operação de um serviço essencial, relacionado diretamente à água consumida nas residências, à coleta de esgoto, às tarifas cobradas das famílias, à autonomia dos municípios e à capacidade do Estado de fiscalizar o cumprimento das obrigações contratuais. Chamar esse processo apenas de modernização ou investimento seria tão insuficiente quanto classificá-lo automaticamente como solução para as deficiências históricas da Caerd. O tamanho do contrato exige mais do que propaganda governamental e mais do que declarações eleitorais de ocasião.
A eleição para o Governo de Rondônia precisa, por isso, assumir essa discussão como tema central. Os pré-candidatos não podem restringir suas manifestações a frases genéricas contra a falta de transparência. Também não basta condenar a privatização enquanto as pesquisas eleitorais estão sendo realizadas e deixar aberta a possibilidade de defender o mesmo modelo depois da votação. Cada candidatura deve responder, com precisão, se manterá, suspenderá, revisará ou encerrará o processo caso chegue ao Palácio Rio Madeira.
Marcos Rogério foi um dos nomes que questionaram a condução da concessão. Em manifestação divulgada nas redes sociais, o senador e pré-candidato do PL concentrou sua crítica no momento escolhido pelo Governo do Estado. “O Governo de Rondônia quer avançar com a concessão da Caerd e do saneamento básico justamente no fim do mandato. Estamos falando de uma decisão que pode valer pelos próximos 35 anos e afetar vários municípios. Se esse era um tema tão importante, por que o debate não aconteceu ao longo dos últimos oito anos?”, questionou.
A posição de Marcos Rogério, entretanto, não representa uma rejeição integral à concessão. O próprio pré-candidato declarou não ser contrário à participação da iniciativa privada, aos investimentos ou à modernização. Sua oposição está concentrada no momento, na profundidade insuficiente da discussão e na proximidade das eleições. “Não sou contra concessão, não sou contra investimento, não sou contra modernização. Isso é óbvio. Agora, sou contra fazer uma discussão desse tamanho, dessa profundidade, neste momento. É o momento errado”, afirmou.
Essa distinção precisa ser registrada porque possui importância eleitoral concreta. Marcos Rogério contesta o processo atual, mas não fecha a porta para que a concessão seja retomada em outro momento. A cobrança dirigida a ele deve ser objetiva: caso seja eleito, o modelo será apenas suspenso para novo debate ou será substituído? A crítica ao calendário não esclarece qual solução o pré-candidato considera adequada para a Caerd, para os servidores, para as tarifas e para os municípios atingidos.
Hildon Chaves adotou discurso mais frontal contra o leilão em entrevista ao programa Repórter do Povo, da Rádio Rio Madeira. O pré-candidato afirmou ser totalmente contrário ao certame nas condições apresentadas e pediu atuação dos órgãos de controle, especialmente do Tribunal de Contas do Estado. Segundo ele, uma privatização bilionária não poderia avançar sem discussão abrangente com a sociedade.
Foi Hildon quem estabeleceu de maneira mais direta o paralelo entre a Caerd e a concessão da BR-364. “O cenário está se repetindo, naquela oportunidade também não houve debate público e o resultado foi o pedágio mais caro do país, sem uma contrapartida imediata em obras, uma conta pesada que é paga todos os dias pelos cidadãos rondonienses”, declarou. Na mesma manifestação, acrescentou que o encarecimento do frete atinge produtos básicos, do arroz e do feijão ao gás de cozinha.
A comparação não pode ser tratada como mero recurso retórico de campanha. A BR-364 tornou visível o que acontece quando contratos de longa duração, cobranças sobre serviços essenciais e promessas de investimentos são debatidos apenas depois que os efeitos econômicos chegam ao cidadão. Na avaliação apresentada por Hildon, Rondônia corre o risco de repetir com a água aquilo que já experimenta com os pedágios: primeiro se conclui o processo, depois se descobre o peso da conta.
A firmeza do discurso, contudo, também cria uma obrigação para Hildon. Quem se declara totalmente contrário ao leilão precisa dizer qual providência adotará caso o contrato esteja assinado quando o próximo governo assumir. Também deve apresentar uma alternativa administrativa e financeira capaz de enfrentar as deficiências do saneamento sem simplesmente preservar a estrutura existente. A rejeição ao modelo atual é uma posição política relevante, mas não substitui a necessidade de explicar como os serviços serão financiados, ampliados e fiscalizados.
Adaílton Fúria apresentou uma resposta diferente. Em entrevista ao programa A Voz do Povo, o pré-candidato do PSD declarou que os serviços devem permanecer sob controle público e defendeu uma reestruturação da Caerd. “Não precisa vender a Caerd. A Caerd precisa de uma reestruturação, uma grande reestruturação”, afirmou. O ex-prefeito também apontou a elaboração de projetos técnicos e a busca de recursos federais como caminhos para ampliar as redes de água e esgoto.
Entre os posicionamentos apresentados, o de Fúria oferece uma alternativa mais definida ao modelo de concessão: manter a companhia pública, reorganizar sua estrutura e captar investimentos em Brasília. Isso, porém, ainda precisa ser transformado em planejamento demonstrável. Reestruturar uma empresa pública não é expressão suficiente por si mesma. A candidatura terá de explicar como pretende enfrentar dívidas, interferências políticas, deficiências operacionais e necessidade de expansão dos serviços sem transferir o problema para o orçamento estadual ou para as tarifas.
Samuel Costa direcionou sua crítica ao desenho financeiro da concessão. Durante entrevista ao Repórter do Povo, da Rádio Rio Madeira, o pré-candidato do PSB afirmou que a iniciativa privada assumirá a operação e os investimentos, enquanto o Estado ficará responsável pelo passivo financeiro acumulado pela Caerd. “Não sou contra a participação da iniciativa privada quando ela atende ao interesse público. O problema é quando o Estado assume os prejuízos e a população permanece pagando a conta”, declarou.
A advertência de Samuel toca em uma das questões mais sensíveis do processo. Caso o Estado absorva as obrigações financeiras da companhia enquanto a exploração dos serviços passa ao setor privado, será indispensável demonstrar de que maneira riscos, custos e benefícios estarão distribuídos. O contribuinte não pode ser convocado para pagar o passivo da estrutura pública e, posteriormente, ser chamado novamente a financiar o sistema por meio das tarifas cobradas pela concessionária.
Assim como Marcos Rogério, Samuel não rejeita a participação privada de maneira absoluta. Sua crítica depende das condições do contrato, da distribuição dos riscos e da proteção do interesse público. Por isso, também precisa definir quais cláusulas considera inaceitáveis, quais garantias exigiria da futura concessionária e em que circunstâncias aceitaria algum formato de parceria com empresas.
Expedito Netto foi mais categórico. Em entrevista ao programa Giro News, do site News Rondônia, o pré-candidato do PT declarou que a privatização poderá repetir experiências que, na avaliação dele, não entregaram os resultados prometidos à população. “Hoje estão querendo privatizar a Caerd. Mais uma vez vão tentar fazer uma privatização que não dá certo, sem valorizar o servidor público”, afirmou.
Netto também responsabilizou a interferência política pelo enfraquecimento da companhia. “A Caerd é um cabide de emprego de deputado e de governador. A Caerd é feita para dar errado”, declarou. Em seguida, manifestou desconfiança sobre a sinceridade de outros concorrentes: “Vários candidatos vão falar que não querem privatizar a Caerd porque querem o seu voto. Mas, lá na frente, o que eles defendem e o que eles vão fazer é defender a privatização”.
A acusação aumenta o peso da responsabilidade assumida pelo próprio pré-candidato. Se a Caerd foi enfraquecida por indicações políticas, mantê-la pública exigirá demonstrar como o aparelhamento será interrompido. Não será coerente condenar a privatização e, ao mesmo tempo, preservar práticas que teriam levado a companhia à situação usada como justificativa para a concessão. Expedito Netto precisa explicar qual governança implantaria, como protegeria a empresa de interferências partidárias e de onde viriam os recursos para sua recuperação.
Enquanto os pré-candidatos se manifestam em entrevistas e redes sociais, o deputado estadual Delegado Camargo levou o tema para o campo legislativo. O parlamentar protocolou um Projeto de Decreto Legislativo destinado a suspender os efeitos do edital e da resolução que autorizaram o avanço do processo. A proposta cobra esclarecimentos sobre alterações nas minutas contratuais, tarifa social, metas de universalização, sanções, subsídios entre municípios e definição da agência responsável pela fiscalização.
“Eu não sou contra melhorar o serviço de água e esgoto em Rondônia. Pelo contrário, a população precisa de saneamento, investimento e água de qualidade. Mas melhorar o serviço não pode ser desculpa para entregar a água do povo sem transparência, sem segurança e sem garantia de que a conta não vai sobrar para o cidadão”, declarou Camargo.
O projeto representa um teste institucional para a Assembleia Legislativa. Deputados que criticam a concessão em entrevistas terão de demonstrar como votarão quando a suspensão do processo estiver formalmente submetida ao Parlamento. A distância entre o discurso e a decisão concreta será um dos elementos mais reveladores desse debate.
A concessão da BR-364 já ofereceu a Rondônia uma advertência política: depois da assinatura dos contratos e do início das cobranças, a capacidade de reação do poder público torna-se limitada, lenta e sujeita a disputas administrativas e judiciais. A legalidade da cobrança eletrônica de pedágio chegou a ser discutida judicialmente, e a ANTT informou, em fevereiro de 2026, que uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região havia restabelecido o sistema. (Serviços e Informações do Brasil) A experiência mostra que protestar depois da consolidação do modelo não produz os mesmos efeitos que fiscalizar antes da assinatura.
Por isso, não é aceitável que a concessão da Caerd atravesse a campanha de 2026 como assunto secundário. Também não é admissível que os candidatos usem o desgaste dos pedágios apenas como combustível eleitoral, sem assumir compromissos objetivos sobre a água e o esgoto. Quem pretende governar Rondônia precisa dizer agora, antes do voto, o que fará com o edital, com a Caerd, com os passivos, com os servidores, com as tarifas e com a autonomia dos municípios.
Marcos Rogério questiona o momento, mas admite concessões. Hildon Chaves rejeita o leilão e invoca o precedente da BR-364. Adaílton Fúria defende a reestruturação pública com recursos federais. Samuel Costa concentra a crítica na transferência dos prejuízos ao Estado. Expedito Netto rejeita a privatização e responsabiliza a interferência política pelo enfraquecimento da companhia. Delegado Camargo tenta suspender o processo pela via legislativa.
As diferenças estão apresentadas. O que falta são compromissos capazes de sobreviver ao resultado das urnas.
A água não pode ser tratada como mercadoria eleitoral, assim como Rondônia não pode aceitar que um contrato de 35 anos seja decidido na pressa dos últimos meses de um governo. Depois do leilão, das assinaturas e das primeiras contas, será tarde demais para os candidatos alegarem que não conheciam os riscos. A população já pagou caro para aprender essa lição na BR-364. Não há justificativa para que seja obrigada a aprendê-la novamente abrindo a torneira de casa.
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caerd-e-tema-domina-o-debate-eleitoral-de-2026,250117.shtml" target="_blank">EDITORIAL CAERD ELEIÇÕES CONCESSÃO BILIONÁRIA PRIVATIZAÇÃO DA CAERD AEGEA MARCOS ROGÉRIO HILDON CHAVES ADAÍLTON FÚRIA EXPEDITO NETTO SAMUEL COSTA DELEGADO CAMARGO OPINIÃO As informações são do site Rondônia Dinâmica.
Texto originalmente publicado em https://www.rondoniadinamica.com/noticias/2026/07/bilhoes-por-decadas-rondonia-corre-o-risco-de-pagar-caro-pela-concessao-da-caerd-e-tema-domina-o-debate-eleitoral-de-2026,250117.shtml.
Fonte/Créditos: Por Redação | Rondônia Dinâmica Publicada em 25/07/2026 às 09h30

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