O diferencial desse modelo reside no protagonismo dos próprios moradores na gestão da atividade turística. Eles são responsáveis por estabelecer as regras de visitação, organizar os serviços, guiar os visitantes e oferecer opções de alimentação, hospedagem, transporte e experiências culturais. Ana Clévia Guerreiro, coordenadora de Comércio, Serviços e Economias de Futuro do Sebrae Nacional, enfatiza que essa característica é o cerne do turismo de base comunitária.
Ele se caracteriza pelo protagonismo das pessoas daquele local, daquele destino, daquele território. O visitante se conecta com aquilo que é mais autêntico, com a história, os desafios e as conquistas daquela comunidade.
Ana Clévia Guerreiro, coordenadora de Comércio, Serviços e Economias de Futuro do Sebrae Nacional
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A colaboração entre o Sebrae Goiás e o território Kalunga teve início em 2002, com a Cavalgada Científica Kalunga, uma das primeiras ações técnicas para o desenvolvimento turístico em conjunto com os residentes. Desde então, a parceria evoluiu por diversas etapas, incluindo o Projeto Vila Kalunga, capacitação de condutores, fomento à agricultura familiar, estudos de branding e, mais recentemente, a implementação da Rede de Agentes de Roteiros Turísticos, iniciada em 2022.
Priscila Vilarinho, gestora estadual de Turismo do Sebrae Goiás, detalhou que o ciclo mais recente de atuação foi estruturado em quatro eixos principais:
- Gestão colaborativa do turismo;
- Ordenamento da atividade no território;
- Qualificação das experiências e produtos turísticos;
- Promoção e apoio à comercialização.
Vilarinho ressaltou que todas as iniciativas foram conduzidas de forma colaborativa, respeitando a identidade, o ritmo social da comunidade, seu protagonismo e o processo de empoderamento local.
Renda que permanece no território
O impacto financeiro do turismo beneficia diversas esferas da comunidade. Entre 2022 e 2023, a atividade gerou R$ 5 milhões em receita para a Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE), R$ 3,5 milhões para guias e condutores, R$ 1,8 milhão para transportadores e R$ 1,5 milhão para restaurantes. Esse fluxo financeiro impulsiona uma cadeia produtiva que abrange agricultura familiar, artesanato, hospedagem, alimentação, transporte, condução de visitantes e serviços de apoio.
O papel das mulheres é notável nesse cenário. O estudo indica que 100% dos restaurantes e 75% dos meios de hospedagem são gerenciados por mulheres, que também correspondem a 42% dos condutores de visitantes. A maior parte da produção artesanal é igualmente realizada por mulheres, que encontraram no turismo uma fonte de renda sem a necessidade de deixar a comunidade.
Dominga Natália Moreira dos Santos, liderança da Comunidade Kalunga do Engenho II, professora, condutora de visitantes e empreendedora no setor de hospedagem, testemunha que o turismo abriu novas perspectivas para mulheres e jovens. Ela relata sua primeira experiência como condutora ainda na infância, motivada pela curiosidade em uma atividade que, à época, era predominantemente masculina.
Minha primeira fonte de renda foi como condutora de visitantes. Fiz o curso com apoio do Sebrae e, a partir daí, comecei minha trajetória no turismo.
Dominga Natália Moreira dos Santos, liderança da Comunidade Kalunga do Engenho II
Gestão coletiva e investimentos
A administração do turismo é realizada pela associação comunitária, com decisões tomadas em assembleia. Após cobrir salários de funcionários, custos operacionais e manutenção, parte dos recursos é direcionada a investimentos definidos pela própria comunidade. Entre os benefícios já concretizados estão:
- Melhoria de estradas;
- Compra de veículos e máquinas;
- Instalação de internet e rede de água;
- Apoio a eventos culturais;
- Estruturação de atrativos;
- Cursos e equipamentos comunitários;
- Ações de saúde;
- Fortalecimento da gestão territorial.
A AKCE também emprega formalmente trabalhadores em áreas como reserva, recepção, administração, loja, limpeza e manutenção. Para Priscila Vilarinho, a experiência Kalunga demonstra que o turismo é sustentável quando a comunidade detém o controle da operação e lidera a distribuição dos benefícios. Ela enfatiza que o sucesso do turismo de base comunitária está intrinsecamente ligado ao respeito ao tempo da comunidade, e que o planejamento técnico deve andar em conjunto com os processos de empoderamento e legitimidade local.
Cultura como experiência turística
Apesar da Cachoeira Santa Bárbara ser um dos principais pontos turísticos, a comunidade tem expandido a oferta de experiências para além das belezas naturais. Rodas de conversa, gastronomia quilombola, histórias dos anciãos, artesanato, agricultura familiar, festas tradicionais e narrativas sobre a luta pelo território agora fazem parte da proposta turística.
Ana Clévia destaca que essa abordagem é uma das maiores contribuições do turismo de base comunitária para a valorização da brasilidade. Segundo ela, quanto mais singular e autêntico é um território, maior o interesse que ele desperta, sendo essa identidade, construída ao longo de décadas ou séculos, o que atrai as pessoas a conhecerem o local.
O reconhecimento nacional veio em 2023, quando a AKCE foi agraciada com o Prêmio Nacional do Turismo, concedido pelo Ministério do Turismo, como a melhor iniciativa de Turismo de Base Comunitária do Brasil. Dominga Natália vê essa conquista como a validação de um caminho construído coletivamente. Ela afirma que foi um reconhecimento imenso, que demonstra que estão no caminho certo e que a comunidade sente de perto a importância desse trabalho.
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Fonte/Créditos: Fonte: Assessoria/Sebrae

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