A presença policial, num contexto que exigia apenas diálogo e esclarecimento, não é um detalhe. É sintoma de uma sociedade que ainda reage com violência quando se depara com culturas que não reconhece ou que prefere não validar. É inadmissível que autoridades armadas sejam convocadas para intervir em uma atividade infantil que trata de cultura, literatura e identidade. O que deveria ser resolvido em conversa, entendimento e responsabilidade compartilhada foi transformado em uma demonstração de poder que fragiliza a escola, ameaça profissionais da educação e envia à comunidade a mensagem equivocada de que a diversidade é perigosa. Uma instituição que cumpre seu dever de educar para o mundo não pode ser tratada como suspeita.
O gesto do pai acrescenta outra camada importante. Ele confunde atividade pedagógica com rito religioso, como se toda referência a orixás representasse prática litúrgica. Esse equívoco revela desconhecimento, mas revela também algo mais grave: a tendência histórica de deslegitimar tudo o que vem das matrizes africanas. Quando um pai acredita que mostrar Iansã a uma criança é doutrinação, ele demonstra como o racismo religioso opera. As culturas negras precisam sempre se justificar. Precisam provar que têm valor. Precisam explicar que existem enquanto tradição, símbolo, mito, referência estética e literária. Não há estranhamento quando escolas apresentam mitologia grega, romana, nórdica ou judaico-cristã. Ninguém chama a polícia porque crianças desenham Zeus, Afrodite, Pã, anjos ou passagens bíblicas incorporadas ao imaginário brasileiro. O incômodo aparece quando o divino tem origem africana.
Esse caso não é isolado. Ele ecoa séculos de demonização, perseguição e criminalização das religiões de matriz africana. Faz parte de um ciclo que tenta associar orixás a perigo, confusão, superstição ou ameaça moral. Um ciclo que tenta reduzir a presença negra ao plano da resistência eterna, como se cultura afro-brasileira fosse sempre algo a se observar com cautela. O racismo religioso no Brasil se manifesta de forma explícita quando terreiros são incendiados, quando mães e pais de santo são agredidos, mas se manifesta também de forma sutil e cotidiana quando atividades culturais são interpretadas como invasão espiritual. A retirada dos desenhos expostos no mural da escola, o medo das professoras, o tumulto gerado, tudo isso reforça a ideia de que produzir referências negras em ambiente público ainda é um risco.
A escola, por sua vez, tem a responsabilidade de não recuar. Educar para o mundo é educar em contato com a pluralidade. A infância precisa reconhecer que existem muitas narrativas sobre a vida, e que todas merecem respeito. O currículo que aborda orixás não impõe religião, e sim história, cultura, ancestralidade, diversidade e repertório simbólico. É um antídoto contra o apagamento. É uma forma de crianças negras se enxergarem. É também um modo de crianças não negras ampliarem seu entendimento sobre o país em que vivem. Se a escola hesita, perde sua função de ponte entre conhecimento e sociedade. Se aceita as pressões daqueles que confundem cultura com culto, perpetua a desigualdade que afirma combater.
A relação entre família e escola precisa ser pautada por escuta e responsabilidade. O pai da criança poderia ter buscado esclarecimento, solicitado reunião, entendido o contexto da atividade. Ao invés disso, escolheu transformar uma situação pedagógica em ocorrência policial. A presença dos agentes não protegeu ninguém. Apenas reafirmou a velha ideia de que a cultura africana só aparece na sociedade ligada à suspeita, ao crime. A escola agora lida com medo, estigma e tensão. A comunidade escolar precisa reconstruir confiança. As crianças precisam entender que não fizeram nada errado. E o Estado precisa assumir a responsabilidade de orientar seu aparato policial para agir com sensatez, consciência social e respeito às instituições educativas.
Esse episódio precisa nos conduzir a uma reflexão séria. A intolerância não nasce sozinha. Ela é alimentada por discursos, medos e preconceitos que circulam livremente entre nós. Se uma simples referência a Iansã provoca pânico, é porque ainda há muito trabalho a ser feito para que o Brasil compreenda sua própria formação. É preciso enfrentar o racismo religioso com firmeza. É preciso afirmar que culturas de matriz africana não são ameaça. São parte fundamental da identidade do país. E é preciso lembrar que escolas não são trincheiras em guerras morais. São espaços de convivência, curiosidade e construção de cidadania.
Educar para o mundo significa preparar cada menina e cada menino para encontrar o outro sem medo e sem hierarquia. Significa ensinar que diversidade não é concessão, é fundamento ético. A escola que cumpre esse papel merece proteção e respeito. A sociedade que entende isso caminha para a maturidade democrática. A que não entende, repete antigos padrões de violência simbólica e institucional.
Que este caso sirva como alerta. Que não se normalize o acionamento da polícia como instrumento de censura. Que o Estado e seus agentes compreendam que sua função é garantir direitos, não reforçar preconceitos. E que pais e responsáveis compreendam que proteger seus filhos passa também por permitir que conheçam outros mundos, outros saberes, outras histórias. O Brasil não pode continuar tratando a cultura negra como suspeita. Não pode seguir punindo a diversidade. Não pode permanecer repetindo os silenciamentos que herdou.
A escola que educa para o mundo tem a obrigação de acolher a pluralidade. A sociedade que se pretende democrática tem o dever de defendê-la. E nós, que habitamos este território chamado Brasil, temos a responsabilidade de não permitir que episódios como esse se tornem rotina. A infância merece crescer livre do medo. A cultura afro-brasileira merece ser tratada com a dignidade que lhe cabe. E a escola merece ser espaço de luz, não de intimidação.
Fonte/Créditos: Rodrigo França/Metrópoles
Créditos (Imagem de capa): SigaGoogle Discover Reprodução/Google Street View

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