RESENHA POLÍTICA

RESENHA POLÍTICA ROBSON LIVEIRA
ACENO
Antes de qualquer coisa, Confúcio Moura precisa decidir se é candidato ou se apenas aprecia manter o noticiário em permanente estado de suspense. Em entrevista ao site Eu Ideal, voltou a acenar com a possibilidade de disputar a reeleição, mas condicionou a decisão ao eventual retorno de Acir Gurgacz ao tabuleiro eleitoral. Se Acir for candidato, recua. Se não for, avança. A política, para o emedebista, parece ter virado uma dança das cadeiras em que apenas ele conhece a música.
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VOLATIVIDADE
O problema é que essa não é a primeira versão apresentada ao público. Em conversa com este cabeça-chata, garantiu que não disputaria mais cargos eletivos. Agora admite que pode disputar. Amanhã, quem sabe, descubra uma terceira hipótese. Em tempos de desconfiança generalizada, a volatilidade discursiva costuma cobrar pedágio - e este, diferentemente do da BR-364, não admite desconto.
MELANCOLIA
Confúcio foi, sem dúvida, um dos políticos mais preparados que Rondônia produziu. Governador bem-sucedido, intelectual acima da média da bancada federal e homem público de trajetória invejável. Mas há momentos em que a biografia deixa de empurrar o presente e passa apenas a iluminá-lo de forma melancólica.
POSIÇÕES
Sua popularidade começou a sofrer abalos profundos quando decidiu criar, por uma simples canetada ao apagar das luzes do governo, onze reservas ambientais sem um debate amplo com os setores atingidos. A reação política foi intensa e o desgaste permanece vivo anos depois. Depois vieram as discussões sobre a concessão da BR-364 e seu alinhamento ao governo federal, posição difícil de sustentar num dos estados mais refratários ao lulismo em toda a Região Norte.
ENCOLHIMENTO
Há outro aspecto que o senador parece ignorar: a erosão de sua própria base política. Muitos dos companheiros que caminharam ao seu lado durante décadas já não estão por perto. Alguns se afastaram silenciosamente. Outros romperam de forma definitiva. Lideranças políticas não se medem apenas pelos votos que recebem, mas pela quantidade de pontes que conseguem preservar. E, nesse quesito, o patrimônio político de Confúcio encolheu de forma visível.
VELHO
O MDB de Rondônia também não escapou desse processo. A legenda que já ocupou posição central no jogo político estadual foi perdendo protagonismo, influência e capacidade de renovação. O partido parece ter envelhecido junto com seu principal líder, enquanto novas forças ocuparam espaços antes dominados pelos emedebistas.
ISOLADO
Existe uma ironia cruel em tudo isso. O político que já foi sinônimo de articulação, diálogo e capacidade de agregar hoje parece cada vez mais isolado dentro do próprio campo político. A cada eleição, a roda gira, os aliados mudam de lado e os antigos aplausos vão sendo substituídos por silêncio.
AMBIGUIDADES
Esta coluna já escreveu elogios sinceros ao ex-governador. Seria desonesto ignorar sua inteligência, sua capacidade administrativa e sua contribuição para a história política de Rondônia. Mas também seria desonesto fingir não enxergar o desgaste de uma liderança que parece cada vez mais prisioneira das próprias ambiguidades.
DILEMA
Confúcio está diante de uma escolha que talvez seja a mais difícil de sua longa carreira. Pode preservar a estatura de homem público que ajudou a construir ao longo de décadas ou insistir em desafiar um eleitorado que já não demonstra o mesmo entusiasmo de outros tempos. A política, afinal, é impiedosa com quem acredita que o prestígio acumulado no passado rende juros eternos.
REFLEXO
Eis o drama do senador: sua biografia continua grande, mas sua influência parece cada vez menor. Se insistir em disputar a reeleição, poderá descobrir que o adversário mais perigoso não está em nenhum partido, nem em qualquer palanque. Está no espelho. Porque chega um momento em que não é o político que escolhe a hora de encerrar um ciclo. É o próprio ciclo que encerra o político.
PAUTA
A Câmara dos Deputados produziu um daqueles raros momentos em que a política parece ouvir o país real. A aprovação da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho e coloca fim à desgastante escala 6x1 reuniu votos da esquerda, do centro e até da direita, demonstrando que a exaustão do trabalhador brasileiro finalmente entrou na pauta nacional.
TEMPO
A proposta não trata apenas de horas e números. Trata de tempo. Tempo para a família, para os filhos, para os estudos, para o descanso e para algo cada vez mais raro na vida moderna: viver. Durante décadas, milhões de brasileiros conviveram com a rotina de trabalhar seis dias para descansar apenas um, transformando o lazer em privilégio e a convivência familiar em artigo de luxo.
REPETIÇÃO
Os críticos da mudança repetem os velhos alertas usados contra praticamente todos os avanços sociais da história. Foram os mesmos argumentos apresentados contra férias remuneradas, décimo terceiro salário e tantos outros direitos que hoje parecem naturais. Nenhuma sociedade se torna mais desenvolvida apenas produzindo mais; ela avança quando proporciona melhores condições de vida para quem produz a riqueza.
RESISTÊNCIA
Agora a matéria desembarca no Senado, onde encontra resistências mais organizadas. Os senadores que pretendem barrar ou desfigurar a proposta fariam bem em observar o humor das ruas. O trabalhador que acorda cedo, enfrenta trânsito, ônibus lotado, jornadas extenuantes e chega em casa sem energia para conviver com a família já não enxerga esse debate apenas como uma discussão técnica.
FAMÍLIAS
Em estados como Rondônia, onde os servidores públicos estaduais e municipais formam um contingente expressivo do eleitorado, a discussão ganha um componente particular. É verdade que boa parte desses servidores já possui jornadas e regimes de descanso mais favoráveis do que aqueles enfrentados pela maioria dos trabalhadores celetistas. Mas são justamente eles que convivem diariamente com filhos, pais, irmãos, cônjuges e amigos submetidos à escala 6x1. Muitos desejam que seus familiares tenham acesso ao mesmo tempo livre, à mesma convivência familiar e às mesmas oportunidades de descanso que eles próprios já possuem.
PROBLEMA
Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. A população acompanha cada vez mais as votações e cobra coerência dos seus representantes. Em ano eleitoral, posicionar-se contra uma pauta identificada por milhões de trabalhadores como um avanço humanitário e civilizatório pode se transformar em um problema político de grandes proporções. Louco é o político que dá ouvidos para vozes dissonantes.
URNAS
O Senado tem o direito de aperfeiçoar a proposta. O que talvez não consiga é escapar do julgamento das urnas caso seja visto como o responsável por impedir que milhões de brasileiros tenham mais tempo para viver além do trabalho. Em política, há votações que passam despercebidas. Esta dificilmente será uma delas.
GUERRA
Entre colheitadeiras reluzentes, tratores que custam pequenas fortunas e o entusiasmo típico das feiras agropecuárias, um grupo chamou mais atenção do que as máquinas expostas na Rondônia Rural, em Ji-Paraná. Não por apresentar novas tecnologias para o campo, mas por cultivar um produto político que segue rendendo dividendos eleitorais: a guerra permanente contra o Supremo Tribunal Federal.
EXTREMOS
O pré-candidato ao Senado Bruno Scheid percorreu a exposição acompanhado pela tropa de choque do bolsonarismo raiz - os deputados federais Zé Trovão e Hélio Lopes, além da vereadora Sofia Andrade. Todos vestiam camisetas pretas com a inscrição “O Diabo Usa Toga”, numa referência nada sutil aos ministros da Suprema Corte e, especialmente, ao ministro Alexandre de Moraes.
APOSTA
A provocação tem propósito e público-alvo. Scheid não faz questão de esconder que uma de suas principais bandeiras é o impeachment de ministros do Supremo. Em vez de suavizar o discurso para conquistar setores moderados do eleitorado, prefere dobrar a aposta na polarização e alimentar a militância mais fiel da direita bolsonarista.
BOLHA
O raciocínio parece simples: se a bolha conservadora, estimada por pesquisas em cerca de 30% do eleitorado, permanecer mobilizada, poderá ser suficiente para empurrá-lo rumo a uma das vagas ao Senado. Pode ser um cálculo correto. Pode ser um equívoco monumental. A urna, em outubro, dará a sentença.
RAÍZES
Mas há um fato impossível de ignorar. Bruno Scheid surgiu na disputa praticamente do nada. Sem raízes profundas nos grupos políticos tradicionais de Rondônia, sem vínculos com a burocracia partidária que costuma definir candidaturas e sem a trajetória convencional dos postulantes ao Senado.
IMPOSIÇÃO
Sua candidatura não nasceu das articulações do PL rondoniense, mas dá vontade de Jair Bolsonaro. Foi uma imposição do ex-presidente ao partido. Desde então, Scheid passou a ocupar um lugar peculiar no imaginário bolsonarista local: uma espécie de filho bastardo político de Bolsonaro, tratado por aliados e adversários como o “Zero Cinco” da família na política de Rondônia.
INCOMODANDO
Eis o paradoxo. Embora tenha saído da obscuridade política e ideológica, Scheid conseguiu aquilo que muitos nomes tradicionais perseguem sem sucesso: chamar atenção. Seu discurso incomoda adversários, embaralha cálculos eleitorais e desperta inquietação até entre candidatos que já contavam como certo um pedaço do eleitorado conservador.
ESPÓLIO
As eleições sequer começaram oficialmente. Há muito chão, muitas alianças e inevitáveis traições pela frente. Mas uma constatação já pode ser feita. Enquanto os velhos caciques seguem discutindo quem herdará o espólio político da direita em Rondônia, Bruno Scheid trabalha para convencer os eleitores de que não pretende ser herdeiro de ninguém. Quer ser o próprio inventário.
VITRINE
A Rondônia Rural Show transformou-se numa vitrine de máquinas agrícolas, negócios milionários e, pelo visto, também de promoção política disfarçada. Quem percorreu os corredores da feira encontrou uma floresta de outdoors, placas e peças publicitárias de pré-candidatos que pareciam mais preocupados em plantar votos do que apresentar projetos.
FATOS
Foi exatamente isso que o jornalista Rubens Coutinho, do Tudo Rondônia, observou e denunciou publicamente, cobrando dos órgãos de fiscalização eleitoral a atenção que os fatos exigiam. O que veio em seguida foi ainda mais espantoso que a paisagem eleitoral antecipada.
EQUILÍBRIO
Em vez de uma manifestação institucional equilibrada ou mesmo o silêncio prudente, surgiu das profundezas burocráticas do Tribunal Regional Eleitoral uma nota agressiva, mal redigida e carregada de arrogância. Um texto tão desastrado que parecia escrito às pressas por alguém confundindo assessoria de comunicação com corregedoria disciplinar.
LOROTA
Há anos os tribunais pedem parceria da imprensa no combate aos abusos, na defesa da democracia e na fiscalização do processo eleitoral. Bonito no discurso. Na prática, quando um jornalista faz exatamente aquilo que dele se espera - observar, questionar e cobrar - recebe como resposta um puxão de orelhas público. A mensagem é cristalina: a colaboração é bem-vinda desde que não incomode. Quem cai na lorota leva coice.
RÉU
O episódio expõe uma contradição constrangedora. Enquanto políticos avançam sobre os limites da legislação eleitoral com a confiança de quem sabe que dificilmente será incomodado, a energia institucional parece ser direcionada contra quem aponta o problema. O fiscal vira réu moral e os possíveis infratores permanecem confortavelmente instalados sob os holofotes.
OFENSA
Não há memória recente no jornalismo rondoniense de manifestação oficial tão infeliz, tão desnecessária e tão ofensiva contra um profissional que apenas exerceu sua função. O texto divulgado em nome da Corte não constrangeu Rubens Coutinho; constrangeu a própria instituição que permitiu sua publicação.
TOGA
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais tantos agentes políticos se arriscam a caminhar na fronteira da lei. Aprenderam, ao longo do tempo, que os alertas costumam incomodar mais do que os abusos. E quando o mensageiro passa a ser o problema, a mensagem perde a força e a democracia perde um pouco mais. Por esta e outras razões os políticos desfilam por aí com frases emblemáticas de que o diabo usa toga.
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Fonte/Créditos: Por Robson Oliveira Publicada em 02/06/2026 às 08h30
