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Segunda-feira, 26 de Outubro 2026
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Eleições 2026

Quando o povo quer, ninguém segura: a virada de Lula e o legado de um líder

Uma das leituras políticas mais importantes dessa eleição está na diferença de estratégia entre os dois campos.

Quando o povo quer, ninguém segura: a virada de Lula e o legado de um líder
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Quando o povo quer, ninguém segura: a virada de Lula e o legado de um líder

Por Samuel Costa

AntagonistaRO - Existem momentos na história em que as urnas deixam de ser apenas instrumentos de escolha política e passam a representar mensagens profundas de uma sociedade. A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é marcada por momentos assim. A frase “quando o povo quer, ninguém segura” traduz a força de uma liderança que, mesmo diante de adversidades, encontrou no voto popular o caminho para continuar ocupando um lugar central na política brasileira.

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A virada de Lula sobre o bolsonarismo, na disputa eleitoral de 2026, representa muito mais do que uma vitória nas urnas. Foi uma demonstração de que nenhuma força política pode considerar uma eleição decidida antes de o povo se manifestar. Campanhas, estruturas partidárias, recursos financeiros e estratégias de comunicação têm seu peso, mas não substituem a decisão soberana dos eleitores.

Enquanto a extrema direita subiu no salto alto, Lula trabalhou para ampliar sua base.

Uma das leituras políticas mais importantes dessa eleição está na diferença de estratégia entre os dois campos. Na avaliação de seus adversários, a extrema direita entrou na disputa com confiança elevada e uma campanha de grande alcance, mas que, em muitos momentos, pareceu falar principalmente para quem já estava convencido. Foi uma campanha voltada para dentro, mobilizando sua própria militância, reforçando suas convicções e apostando na força de sua base eleitoral.

Lula, por sua vez, compreendeu que não bastava mobilizar a esquerda. Era necessário diminuir a abstenção, conversar com quem ainda estava indeciso e conquistar as mentes e os corações do eleitor independente, do centro, da centro-direita e até de setores da direita dispostos a fazer outra escolha.

A estratégia era ampliar pontes, não apenas fortalecer trincheiras. Em vez de falar exclusivamente para os convertidos, era preciso dialogar com quem tinha dúvidas, com quem não se identificava integralmente com nenhum dos lados e com quem, mesmo tendo votado de maneira diferente no primeiro turno, poderia reconsiderar sua decisão.

E o resultado foi expressivo. Lula passou de aproximadamente 53,9 milhões de votos no primeiro turno para mais de 64,2 milhões no segundo, acrescentando cerca de 10,4 milhões de votos à sua votação. Ao mesmo tempo, a abstenção nacional caiu de 21,08% para 19,21%. Esses números ajudam a dimensionar a mobilização eleitoral e a ampliação de seu apoio na etapa decisiva. 

Essa foi a virada dentro da virada: não apenas reverter a vantagem do adversário, mas ampliar a própria votação em uma sociedade profundamente polarizada. A eleição mostrou que uma base fiel é importante, mas não necessariamente suficiente. Em disputas apertadas, a capacidade de dialogar com quem pensa diferente pode fazer a diferença.

Lula construiu uma trajetória singular. De origem operária, tornou-se uma das figuras políticas brasileiras mais conhecidas internacionalmente. Sua história atravessou greves, disputas eleitorais, derrotas, governos, crises e profundas divisões nacionais. Poucos personagens da política contemporânea latino-americana conseguiram manter tamanha presença no debate público ao longo de tantas décadas.

Essa longevidade não pode ser explicada por um único fator. Sua comunicação direta com parcelas expressivas da população, a identificação de muitos brasileiros com sua origem social, a articulação política e a habilidade de construir alianças contribuíram para consolidar sua influência. Sua capacidade de adaptação a diferentes cenários também se tornou uma característica marcante de sua trajetória.

É nesse contexto que sua dimensão histórica ganha relevância. Lula tornou-se uma referência incontornável para compreender a política brasileira e suas conexões com a América Latina e o cenário mundial. Seu nome ultrapassou as fronteiras nacionais e passou a integrar o debate internacional sobre liderança popular, desigualdade social, democracia e representação política.

A disputa contra o bolsonarismo também evidenciou a profundidade da polarização brasileira. Há eleitores que enxergam em Lula a defesa de políticas sociais, direitos trabalhistas e inclusão; outros identificam no campo bolsonarista valores conservadores, críticas ao governo e diferentes concepções sobre o papel do Estado. Compreender o país exige reconhecer essa diversidade, sem transformar adversários políticos em inimigos.

A democracia não se fortalece quando metade da população é tratada como ilegítima. Fortalece-se quando o resultado das urnas é respeitado, os direitos fundamentais são preservados e os governantes compreendem que o mandato pertence ao povo — não a um partido, a uma família política ou a um grupo econômico.

Por isso, a principal lição dessa virada eleitoral não deve ser a revanche, mas a responsabilidade. Vencer significa assumir o compromisso de governar para todos, inclusive para aqueles que escolheram outro caminho. Significa transformar o discurso em resultados concretos na saúde, na educação, na segurança pública, no emprego e na qualidade de vida dos brasileiros.

Lula já ocupa um lugar de destaque na história política do Brasil e da América Latina. O alcance definitivo de seu legado, entretanto, será medido não apenas pela quantidade de eleições disputadas ou pela dimensão de suas vitórias, mas também pelos resultados de suas políticas públicas, pela preservação das instituições democráticas e pelas condições de vida deixadas às próximas gerações.

A eleição de 2026 deixa uma lição que vai além dos partidos: não basta gritar mais alto, mobilizar os próprios apoiadores ou acreditar que a vitória está garantida. É preciso compreender o país real, ouvir quem pensa diferente e reconhecer que milhões de eleitores não pertencem permanentemente a nenhum campo político.

Quando o povo quer, ninguém segura. Mas a vitória não nasce apenas da força de uma militância. Ela também pode nascer da capacidade de dialogar, convencer e construir pontes com quem estava do outro lado.

No fim, nenhum líder é maior do que as instituições, nenhum partido é dono do país e nenhuma eleição autoriza a perseguição de quem pensa diferente. O povo escolhe, a democracia estabelece as regras e os governantes têm o dever de honrar a confiança recebida.

É assim que uma vitória eleitoral pode se transformar em legado histórico: com democracia, responsabilidade pública e compromisso permanente com a vida das pessoas.

Samuel Costa é rondoniense, professor, advogado, jornalista, cientista político e escreve para sites e revistas eletrônicas em Rondônia.

Fonte/Créditos: Por Samuel Costa

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