
Para Renato Júdice de Andrade, professor e diretor do COC, não se trata de uma "falha coletiva" dos estudantes, mas de uma mudança radical na natureza da prova: o Enem deixou de avaliar o "escrever bem" para exigir o "projetar um texto".
O que mudou?
A grande ruptura ocorreu em 2013, quando o MEC "blindou" o processo de correção. Segundo Andrade, o sistema tornou-se mais complexo por meio de três pilares:
O fim da "média amigável": a margem de erro entre dois corretores caiu de 200 para 100 pontos totais (apenas 80 por competência). "Se um corretor via um 'brilho' autoral e o outro via um erro técnico, a nota passou a ser puxada para baixo", explica o especialista.
Critério gramatical: na competência 1, o rigor tornou-se binário. Apenas dois deslizes leves são permitidos para alcançar os 200 pontos. "Um erro de vírgula e um de acentuação já travam o aluno em 160", afirma Renato.
Repertório legitimado: na Competência 2, não basta citar filósofos; é preciso provar o "vínculo causal" entre a citação e o problema. Citações "enlatadas" são severamente penalizadas.
Hegemonia do Nordeste
Enquanto o Sudeste se apoiava no volume e na tradição dos resultados anteriores, estados como Ceará e Piauí adaptaram-se com agilidade.
Em 2023, o Nordeste garantiu 25 notas máximas contra 18 do Sudeste. Renato Júdice destaca que cidades como Teresina e Fortaleza transformaram a redação em uma "ciência aplicada".
"No Nordeste, a redação não termina quando o aluno entrega a folha. Ela termina quando ele atinge a nota máxima", diz Renato, referindo-se à cultura da reescrita.
As escolas da região implementaram "clínicas de redação" e bancas de correção que espelham o rigor do Inep, tratando a escrita como um laboratório constante, e não como uma atividade esporádica restrita ao final do Ensino Médio.
Apagão de 2024 e impacto da tecnologia
O dado de apenas 12 notas 1000 em todo o Brasil no Enem 2024 é visto como um alerta vermelho, reflexo de uma "ressaca da pandemia" que gerou déficit de argumentação.
Renato adverte que a solução não é apenas fornecer hardware, mas tecnologia pedagogicamente estruturada.
IA a favor da qualidade
Por isso o especialista defende o uso de IA (Inteligência Artificial) como um nivelador de oportunidades. Ele acrescenta que a solução de IA para redação visa oferecer o mesmo nível de feedback técnico de um corretor de elite para qualquer aluno, independentemente da localização geográfica.
"A reversão desse cenário exige tecnologia que democratize a correção de alta qualidade. A IA libera o professor para ser o mentor que ajuda o aluno a construir pensamento crítico", conclui Andrade. Para ele, o horizonte deve tornar a nota 1000 um objetivo alcançável por meio de dados e indicadores concretos, e não um luxo para poucos.
Fonte/Créditos: André Nicolau, da CNN Brasil08/04/26 às 12:20 | Atualizado 08/04/26 às 12:20
Créditos (Imagem de capa): Angelo Miguel/MEC



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