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PORTO VELHO, RO - A eleição de 2026 em Rondônia começa a se aproximar sob o impacto de temas que, embora distintos entre si, passaram a circular no mesmo ambiente de debate público: o pedágio eletrônico na BR-364, a discussão sobre a escala de trabalho 6x1 e a repercussão nacional do caso Banco Master, que envolve o senador Flávio Bolsonaro, principal nome do Partido Liberal na disputa presidencial.
Nenhum desses assuntos, isoladamente, permite afirmar que haverá mudança decisiva no cenário eleitoral rondoniense. O bolsonarismo segue com força expressiva no estado, Marcos Rogério aparece como favorito nas pesquisas disponíveis e a chapa do PL foi lançada com forte simbologia política em Ji-Paraná, no dia 14 de março de 2026, com a presença de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, os três temas podem funcionar como pontos de pressão sobre a narrativa conservadora, especialmente se forem explorados pelos adversários ao longo da campanha.
A primeira dessas discussões chegou diretamente ao bolso de quem trafega pela BR-364. Em 12 de janeiro de 2026, entrou em operação o sistema de pedágio eletrônico free flow, com tarifa de R$ 37,00 na praça de Cujubim, um dos valores mais elevados do país para automóveis em rodovias concedidas. A concessão envolve 686,7 quilômetros entre o entroncamento com a BR-435/RO-399 e a BR-319, em Porto Velho, incluindo o anel viário de Ji-Paraná e acessos ao Porto Novo.
O contrato foi apresentado pelo governo federal como a primeira concessão federal rodoviária de Rondônia, com previsão de R$ 10,23 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos, sob responsabilidade da Concessionária Nova 364, vinculada ao consórcio 4UM/Opportunity. O extrato contratual foi publicado em 21 de julho de 2025. Já a Deliberação ANTT nº 517/2025, publicada em 30 de dezembro, autorizou o início da cobrança em janeiro.
As tarifas em sete pontos de cobrança ampliaram a reação pública: Candeias do Jamari, R$ 5,40; Cujubim, R$ 37,00; Ariquemes, R$ 19,30; Ouro Preto do Oeste, R$ 25,00; Presidente Médici, R$ 12,50; Pimenta Bueno, R$ 10,20; e outro trecho em Pimenta Bueno, R$ 35,40. O custo médio de R$ 21,10 por 100 quilômetros passou a ser questionado por representantes do setor produtivo, transportadores e lideranças políticas.
Na audiência pública realizada pela Comissão de Infraestrutura do Senado na sede da OAB-RO, em Porto Velho, no dia 4 de maio, o senador Marcos Pontes (PL-SP) comparou a tarifa de Rondônia com a Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, que cobra R$ 38,70. “Acho que é difícil equiparar, né?”, afirmou. Marcos Rogério, presidente da comissão e pré-candidato ao governo de Rondônia, resumiu a percepção de parte da população: “Esse é o sentimento do rondoniense, é o sentimento de injustiça. Ele vê o pedágio como uma punição, e não como algo razoável, como algo aceitável.”
A fala tem peso político porque Marcos Rogério ocupa, simultaneamente, a presidência da Comissão de Infraestrutura, uma posição de destaque na bancada federal e o posto de principal nome do PL para o governo estadual. A ANTT, por sua vez, sustenta que a cobrança só foi autorizada após vistorias em pavimento, sinalização, atendimento ao usuário e sistemas tecnológicos. A Nova 364 informou investimentos de cerca de R$ 360 milhões antes do início da cobrança, além de 14 bases operacionais e mais de 3,3 mil atendimentos ao usuário. O Ministério dos Transportes afirmou que nenhuma cobrança começa sem cumprimento integral das exigências contratuais.
O ponto sensível, no entanto, está menos na legalidade formal do contrato e mais na percepção pública sobre a ordem dos acontecimentos. Em audiências realizadas em maio de 2025, antes da cobrança, representantes de setores econômicos já demonstravam preocupação com o valor das tarifas e com o impacto logístico. Em 3 de fevereiro de 2026, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública questionando ausência de Análise de Impacto Regulatório para o free flow, modicidade tarifária e impactos regionais. A Justiça Federal chegou a suspender a cobrança em 29 de janeiro, mas o TRF da 1ª Região restabeleceu o pedágio em 11 de fevereiro, sob o argumento de risco ao equilíbrio econômico-financeiro do contrato.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais afirmou em audiência que a antecipação da cobrança “gerou um caos econômico e financeiro, impactando todos os contratos”, pois parte deles teria sido fechada sob a expectativa de que o pedágio começaria apenas em agosto ou setembro. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária estimou aumento no custo do transporte de grãos pela BR-364, de R$ 2,92 bilhões para R$ 3,1 bilhões. Já a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Rondônia afirmou que o usuário foi colocado para pagar “antes das melhorias”.
Marcos Rogério reagiu buscando reposicionar o debate. Além de presidir a audiência, prometeu defender rotas alternativas para reduzir o fluxo de caminhões e veículos na BR-364, citando a Estrada do Boi, a RO-370, com 193 quilômetros entre Parecis e Corumbiara. Também articulou junto à ANTT a antecipação da pavimentação da Expresso Porto, acesso ao porto de Porto Velho, obra estimada em R$ 260 milhões, e a liberação de R$ 25 milhões para a Ponte do Candeias. O diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, confirmou os compromissos durante a audiência.
Adversários, porém, passaram a usar o tema para questionar a atuação anterior da bancada federal. Samuel Costa (PSB) afirmou que Marcos Rogério tenta “confundir a população fazendo espetáculo político em auditório” e perguntou por que a reação mais firme não teria ocorrido antes. O colunista Robson Oliveira também levantou a dúvida sobre o momento do alerta, já que o modelo vinha sendo discutido havia anos.
Em outra direção, o senador Confúcio Moura (MDB), possível candidato à reeleição, assumiu a defesa da concessão. Em série sobre a BR-364, afirmou que o debate sobre o pedágio ‘é legítimo e tem que acontecer’, mas sustentou que a concessão é necessária para enfrentar décadas de descaso com a rodovia. A defesa pública do modelo colocou Confúcio no centro de outra disputa: a da responsabilidade política sobre o pedágio. Parlamentares do PL e aliados do campo conservador frequentemente associam a concessão ao senador, tratado pelos adversários como representante do lulismo em Rondônia -- condição que ele não faz questão de esconder --, sobretudo por sua proximidade com o governo federal e pela defesa aberta do modelo. Confúcio, por outro lado, costuma devolver a crítica lembrando que os estudos, audiências e a estruturação da concessão começaram ainda em 2019, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando o atual governador paulista, Tarcísio de Freitas, comandava o Ministério da Infraestrutura. Assim, o debate sobre o pedágio acabou se transformando também numa disputa de narrativas sobre quem deve assumir os bônus — e os custos políticos — de um projeto construído ao longo de governos diferentes.
A frase mais repercutida foi: “Hoje pode ter divergências, o que é natural. Mas no decorrer do tempo, nós vamos esquecer essas divergências.”
A declaração abriu espaço para críticas de adversários e aliados de outros campos. Bruno Scheid (PL), pré-candidato ao Senado, chamou Confúcio de “pai do pedágio”. Jaime Bagattoli (PL), cujo mandato vai até 2030, articulou diligências e audiência em Vilhena, onde representantes do setor produtivo falaram em “taxação prematura”. Lucio Mosquini (PL) ajuizou ação popular pedindo recálculo da tarifa, argumentando que dados de fluxo usados no contrato foram coletados em 2020, durante a pandemia, em apenas sete dias. Fernando Máximo publicou vídeo dizendo: “Não aceitamos pedágio caro sem obras de início.”
A segunda frente de desgaste potencial surgiu em Brasília, em torno da escala de trabalho 6x1. Em 14 de maio de 2026, foram protocoladas na Câmara dos Deputados a Emenda nº 1 e a Emenda nº 2 à PEC 221/2019, de autoria do deputado Sérgio Turra (PP-RS). A primeira previa redução da jornada para 36 horas apenas após dez anos. A segunda buscava preservar 44 horas semanais para atividades consideradas essenciais. Na prática, as emendas deslocavam o debate do fim imediato da escala 6x1 para uma transição longa e com exceções amplas.
O documento reuniu 176 assinaturas, o equivalente a 34% da Câmara. Cinco deputados federais de Rondônia apareceram na lista: Lucio Mosquini (PL), Coronel Chrisóstomo (PL), Fernando Máximo (PL), Thiago Flores (União Brasil) e Rafael Fera (Podemos). O registro é relevante, mas precisa ser tratado com precisão: não se tratou de voto final da bancada contra o fim da escala 6x1, e sim de assinatura em emendas que poderiam adiar ou limitar os efeitos da proposta.
Depois da repercussão, parte dos parlamentares recuou. Mosquini assinou as duas emendas e protocolou o REQ 3052/2026 para retirar o apoio a ambas. Fernando Máximo, recém-filiado ao PL no evento de Ji-Paraná com Flávio Bolsonaro, assinou as duas e depois apresentou os REQs 3064/2026 e 3063/2026 para retirar as assinaturas. Rafael Fera assinou a EMC 1 e protocolou o REQ 2993/2026 para retirar o apoio. Em nota, atribuiu o episódio a um assessor técnico e afirmou não compactuar com medida que prejudique o trabalhador brasileiro.
Coronel Chrisóstomo assinou as duas emendas e, até o fechamento desta edição, não havia pedido de retirada nos registros consultados. Thiago Flores também assinou as duas, sem retirada localizada até 23 de maio.
O calendário da votação torna o tema ainda mais sensível. O parecer do relator Leo Prates (Republicanos-BA) foi adiado para 25 de maio, após reunião com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o líder do governo, Paulo Pimenta (PT-RS), para negociar pontos com o setor produtivo e partidos do Centrão. A votação na comissão especial segue prevista para 26 de maio.
No Senado, Marcos Rogério defendeu em abril que a redução da jornada seja acompanhada de compensação ao empregador, especialmente por meio de desoneração da folha. É uma posição intermediária entre rejeitar completamente a mudança e apoiar a redução sem condicionantes. Ainda assim, sindicatos tendem a interpretar esse tipo de condicionamento como aproximação com uma transição mais lenta. Para trabalhadores de setores em que a escala 6x1 é comum, a dúvida política permanece: os recuos ocorreram por revisão de posição ou pela repercussão negativa dos documentos?
A terceira frente tem dimensão nacional e efeito local ainda incerto. Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil publicou mensagens, documentos e áudios sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro com estreia anunciada para 11 de setembro de 2026, às vésperas do primeiro turno de 4 de outubro. O material aponta uma negociação de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.
Segundo a publicação, a aproximação inicial entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro teria sido articulada por Thiago Miranda em 8 de dezembro de 2024, com reunião marcada para 11 de dezembro na residência do banqueiro em Brasília. A partir dali, teriam ocorrido pagamentos documentados de US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, em seis operações entre fevereiro e maio de 2025, via fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, com participação de Eduardo Bolsonaro e operacionalização financeira de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e alvo da Polícia Federal.
O material divulgado também trouxe áudios e mensagens atribuídos a Flávio Bolsonaro. Em setembro de 2025, após inadimplência de Vorcaro, o senador teria dito: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim.” Em outro trecho, afirmou: “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo.”
Em 7 de novembro de 2025, dez dias antes da prisão de Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, Flávio teria enviado ao banqueiro uma mensagem com vídeo de visualização única: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc.” Vorcaro respondeu: “Que demais... Ficou perfeito.”
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. Em 4 de março de 2026, o STF, a pedido da Polícia Federal, determinou a prisão preventiva de Vorcaro. Em 20 de março, a 2ª Turma manteve a prisão. Estimativas do Fundo Garantidor de Créditos apontam rombo total de R$ 51,8 bilhões em garantias envolvendo Master, Will Bank e Pleno. A Polícia Federal descreveu o banco como construído “quase inteiramente sobre mentiras”.
A reação de Flávio Bolsonaro passou por diferentes momentos. Antes da publicação do Intercept, ele chamou de “narrativa falsa” qualquer ligação entre a direita e o caso Master e afirmou que a doação do cunhado de Vorcaro para a campanha de Jair Bolsonaro teria ocorrido sem “contato pessoal”. Após a divulgação das mensagens, em 13 de maio, passou a dizer que era apenas “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, sem dinheiro público e sem Lei Rouanet. Em 19 de maio, admitiu ter visitado Vorcaro em São Paulo quando o banqueiro usava tornozeleira eletrônica, afirmando que foi ao encontro dele para “botar um ponto final nessa história”.
Do ponto de vista eleitoral, o caso ainda não permite conclusões definitivas sobre Rondônia. A Agência Pública avaliou que o filme, concebido como peça simbólica da campanha, passou a carregar suspeitas associadas ao Banco Master. A Reuters reportou, em 22 de maio, que pesquisa *Datafolha mostrou Lula com 40% e Flávio com 31% no primeiro turno estimulado, diferença de 9 pontos, contra 3 pontos na rodada anterior. A relação é temporal e não prova causa e efeito, mas indica que o episódio entrou no ambiente político nacional.
Para a chapa do PL em Rondônia, o risco é indireto. Flávio Bolsonaro foi o principal fiador simbólico do lançamento de Marcos Rogério ao governo, Fernando Máximo e Bruno Scheid ao Senado. Em um estado onde Jair Bolsonaro alcançou 70,6% no segundo turno de 2022, essa associação continua sendo ativo eleitoral relevante. Ao mesmo tempo, qualquer desgaste nacional do padrinho pode ser explorado por adversários locais, especialmente se o caso permanecer em evidência durante a campanha.
Marcos Rogério reagiu publicamente atribuindo a repercussão do caso ao avanço de Flávio nas pesquisas e afirmou não haver irregularidade nos fatos narrados pela imprensa. Bruno Scheid manteve discurso de lealdade ao campo bolsonarista e concentrou suas manifestações no impeachment de ministros do STF. Fernando Máximo, que assinou as emendas sobre a 6x1 e depois pediu retirada, e que se filiou ao PL no mesmo evento em que Flávio lançou Marcos Rogério, não havia se manifestado sobre o caso Master até o fechamento deste editorial.
O que une esses três temas não é uma relação direta de causa e efeito, mas a possibilidade de desgaste acumulado. No pedágio, a crítica recai sobre o custo, o momento da cobrança e a percepção de que o usuário começou a pagar antes de ver melhorias suficientes. Na escala 6x1, o problema político está no contraste entre discurso de defesa do trabalhador e registros de apoio a emendas que retardavam a mudança. No caso Banco Master, a bandeira anticorrupção do bolsonarismo passa a conviver com a exposição de negociações milionárias envolvendo Flávio Bolsonaro e um banqueiro investigado.
Ainda assim, é cedo para afirmar que esses temas mudarão o resultado eleitoral. O eleitorado de Rondônia tem histórico recente de forte alinhamento à direita, e Marcos Rogério mantém vantagem nas sondagens conhecidas. O mais prudente é observar que o cenário ganhou camadas novas de disputa narrativa. O campo conservador terá de defender sua agenda diante de temas concretos, enquanto os adversários tentarão transformar pedágio, 6x1 e Banco Master em símbolos de contradição política.
A eleição de 2026, portanto, não será decidida apenas por essas três agendas. Mas elas podem ajudar a moldar o humor do eleitor, especialmente entre quem sente diretamente o custo do pedágio, acompanha o debate sobre jornada de trabalho ou vê nas notícias nacionais um possível desgaste da principal liderança presidencial do PL. Se essas percepções terão força para alterar votos em Rondônia, ainda é uma pergunta aberta — e só a campanha, as pesquisas seguintes e a cabine eleitoral poderão responder.
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*A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios entre quarta-feira (20/5) e quinta-feira (21/5). O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07489/2026.
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EDITORIAL ELEIÇÕES 2026.PEDÁGIOS ESCALA 6X1 BANCO MASTER DANIEL VORCARO FLÁVIO BOLSONARO ESQUERDA DIREITA EDITORIAL RONDÔNIA DINÂMICA As informações são do site Rondônia Dinâmica.
Texto originalmente publicado em https://www.rondoniadinamica.com/noticias/2026/05/tres-contas-um-eleitor-como-o-pedagio-da-br-364-a-escala-6x1-e-o-caso-banco-master-podem-influenciar-as-eleicoes-de-rondonia-em-2026,245316.shtml.
Fonte/Créditos: Por Redação | Rondônia Dinâmica Publicada em 23/05/2026 às 10h20

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