Sábado, 09 Maio de 2026 - 10:22 | por Sergio Sarro

O governo federal anunciou mais uma fase do Desenrola Brasil, abrindo novas possibilidades de renegociação para milhões de brasileiros endividados. É justo reconhecer: para muitas famílias, qualquer oportunidade de reorganizar a vida financeira representa um alívio real
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com sinceridade: o Brasil está apenas desenrolando dívidas, ou está ensinando as pessoas a não voltarem para elas?
Ao longo de três décadas atuando com crédito e finanças, sempre identifiquei um alto índice de reincidência. E os números confirmam isso: pesquisas recentes mostram que 85,34% das novas negativações no SPC/Serasa foram feitas por devedores reincidentes, ou seja, pessoas que já haviam passado pelo cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses. O problema, portanto, não é pontual. É estrutural.
Quem já esteve nessa situação sabe o que uma dívida faz com a cabeça. Não é só o dinheiro. É o sono que vai embora, é a tensão dentro de casa, é aquela sensação de que o buraco nunca vai ter fim. Por isso, iniciativas que facilitem negociações e reduzam juros são bem-vindas e merecem reconhecimento.
Mas há algo que aprendi como profissional em finanças nessas três décadas e que repito sempre: para quem não sabe administrar o que tem, mais dinheiro só significa mais dívida. A solução para o problema financeiro não é mais dinheiro é educação financeira.
A dívida raramente é o começo do problema. Ela é a consequência. O problema começa antes, na falta de orientação básica sobre como lidar com o próprio dinheiro.
A maioria das pessoas chega à vida adulta sabendo usar cartão de crédito, mas sem nunca ter entendido o que são juros compostos. Trabalham, recebem salário, pagam contas, parcelam compras e um dia olham para o extrato e não conseguem explicar para onde foi o dinheiro. Isso não é falta de esforço. É falta de aprendizado.
É por isso que o ciclo se repete. Cartão de crédito para complementar a renda. Cheque especial para fechar o mês. Novo empréstimo para pagar o empréstimo anterior. Não é porque as pessoas não querem acertar. A maioria quer muito. O problema é que ninguém ensinou como.
Ninguém ensinou a diferença entre necessidade e desejo. Ninguém mostrou como montar um orçamento que funcione de verdade. Ninguém falou sobre reserva de emergência antes que a emergência chegasse.
E aí está a minha preocupação com o Desenrola Brasil: ele resolve o presente, mas não muda o futuro. Renegociar uma dívida é como tomar um analgésico - alivia a dor, mas não trata a causa.
Na minha visão, o Brasil precisa ter uma conversa muito mais séria sobre educação financeira nas escolas. Não estou falando de uma disciplina cheia de fórmulas e conceitos técnicos. Estou falando de ensinar comportamento. Ensinar a pensar antes de comprar. Ensinar que dívida tem consequência. Ensinar que planejar não é privilégio de quem tem muito é justamente o que permite conquistar mais estabilidade no futuro.
Esse aprendizado precisa começar cedo. Não quando a pessoa já está no vermelho, mas bem antes disso, ainda na infância. Porque hábito financeiro se constrói como qualquer outro hábito: com repetição, com exemplo e com tempo.
A escola tem um papel fundamental nesse processo. Mas a família também precisa participar. Conversar sobre dinheiro em casa, mostrar às crianças que nem todo desejo precisa ser realizado de imediato, ensinar o valor das coisas parece pouco, mas muda a forma como uma criança vai encarar o dinheiro quando crescer.
Vivemos em uma sociedade que incentiva o consumo o tempo inteiro. As pessoas são estimuladas diariamente a comprar, parcelar, trocar, financiar. E quase ninguém é preparado emocionalmente para lidar com isso. A conta chega e costuma ser pesada.
Por isso, vejo o Desenrola Brasil como uma medida importante, necessária e positiva. Mas acredito que ele deveria servir também como um alerta: o país não pode continuar apenas renegociando o passado sem investir na formação financeira do futuro.
Renegociar uma dívida pode dar um fôlego enorme. Mas a transformação real, aquela que muda trajetória de vida, acontece quando a pessoa aprende a se relacionar melhor com o dinheiro. E isso nenhum programa de renegociação ensina sozinho.
* Sergio Sarro é Contador e Educador Financeiro - Presidente Estadual da ABEFIN - MT, RO e AC

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