Tava tão esbagaçada, na mesinha chulé da recepção do consultório, entre caixinhas de Kleenex e folhetos amassados da Amway, Hinode, faltando título, nome do autor, sem nem capa, que não resisti:
"(...) seja para o que for, exceto depoimento em juízo ou entrevista de emprego, ficção só serve para capturar a atenção de quem tenha interesses e taras parecidos, quem sabe até recíprocos, ou pra si mesmo. Única premissa válida: tudo pode ser seu alvo mas, sem nada, melhor sua ficção ficar na moita. É preciso gerar, parir e criar um corpus mínimo, sejam vinte linhas ou duas páginas, de um trovejar a um descrever, não importa: ali, a sós com papel e caneta, as mãos tudo menos firmes, nessa hora, fique nu. Só não deixe a imaginação ser flagrada de calças arriadas. Coisa mais fácil é desmascarar um clichê, como o consagrado "toda unanimidade é burra", homérico fiasco de Nelson, o Rodrigues. Esquece isso e desses nunca se afaste: Millôr, Dalton, Sabino, Nepomuceno, Hatoum, Silvano, Ana Cristina César, Márcia Denser, as Lygias, J. J. Veiga, Vinicius, Érico e nem olvide Juan Rulfo, Isabel Allende, Mario Benedetti, Álvaro Mútis e os cuecões Llosa, Gabo, Alejo e Borges. Francamente, como "coach", eu mesmo talvez me demitisse. Mas há falas, esquetes, entradas, monólogos, catarses, louvores e profissões de fé, xavecos, números, "deixas", jaculatórias, tudo esperando vez e voz. Atrevi-me a formatar esse tosco, bisonho repertório de truques de pasmar, se vivos fossem, P. T. Barnum e Buster Keaton (!), apenas confiado em ti, pois sei que sabes qual é a única viga-mestra do inventar. Anseias arribar o atol do pensamento, o istmo da mente, ali onde irão dar teus oceanos de diatribes, onde fulgurarão os vulcões da tua invencionice e nadarás em jazidas de delírio, não importa se sua vocação ou destino lá serão revelados ou extintos. Estou falando sobre..."
Rasgada, a página finou-se ali. Bela duma patifaria. Que me sirva de lição pra nunca mais bulir no que é alheio.
P.S. Explico minha cretina galhofa. A aparente molecagem é um veio de homenagem à nossa valente e preciosa antena da raça, Carmem Lúcia: "A literatura sempre é a mais odiada das artes em todas as ditaduras. É o espaço do futuro que o presente não permite. O que um dia foi justo para nossos avós o será para nossos netos? São as letras, apenas elas, que o irão dizer."
Speechless.
Fonte/Créditos: Carlos Assunção
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