O problema para Lula é que as situações não são exatamente as mesmas.
Agora, os petistas querem repetir a mágica. Viram na ação do governo americano a chance de lançar mão novamente da bandeira da soberania nacional. No comunicado oficial do Palácio do Planalto, não faltou nem mesmo a menção à defesa do PIX contra os interesses estrangeiros.

O discurso petista tenta, de todas as formas, convencer a população de que a ação americana vai, na verdade, enfraquecer o combate ao crime. Boa sorte com essa narrativa. Não vou aqui entrar no mérito da medida. Pouco importa, para fins de percepção, se vai enfraquecer ou não o combate ao crime. O fato é que o povo está exausto de insegurança, e disposto a aceitar qualquer coisa que se pareça com uma solução. E ter os americanos endurecendo o jogo para os criminosos é uma narrativa poderosa.
Lula precisa pisar em ovos nesse assunto, porque suas críticas podem ser lidas como apoio ao crime. Uma coisa é ficar do lado dos empresários contra o tarifaço. Outra coisa bem diferente é colocar-se implicitamente ao lado das facções, porque é assim que o povo pode ler suas declarações críticas ao governo americano, e é como certamente a oposição vai caracterizá-lo. Por isso, faz parte da narrativa a “ameaça ao PIX” a única que pode colar.
Aliás, cadê os caçadores de fake news na imprensa, que não colocam um carimbo de “sem provas” nessa acusação do Planalto? Cadê o TSE, sempre tão pronto a velar pela higidez do processo eleitoral, e que deixa passar em branco a acusação de “traição da pátria” feita por Lula ao seu adversário, associando-o ao fim do PIX? Claro, tudo isso é discurso político, e faz parte do jogo. Mas, como sabemos, no Brasil só é permitido a um dos lados fazer discurso político. O monopólio da produção de “fake news” é do outro lado.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
Fonte/Créditos: Por Jornal da Cidade Online 30/05/2026 às 14:55

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