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O reajuste do Bolsa Família anunciado a 17 dias do primeiro turno não se traduziu em mais votos para Luiz Inácio Lula da Silva nas cidades em que o programa pesa mais. Levantamento do Uol, divulgado nesta terça-feira (6), mostra que, nos municípios com alta dependência do benefício — aqueles em que os beneficiários equivalem a 50% ou mais da população —, a votação do petista caiu de 71,5% em 2022 para 68,7% em 2026.
No sentido oposto, os candidatos da família Bolsonaro, Jair em 2022 e Flávio em 2026, ambos do PL, subiram de 23,5% para 27,3% nessas mesmas cidades. O cruzamento usou votos das três últimas eleições presidenciais, população municipal e número de beneficiários do programa (antes chamado Auxílio Brasil). Para 2018 e 2022, os dados de beneficiários são de outubro daqueles anos; para 2026, de agosto, o último mês disponível antes do pleito.
O próprio levantamento não afirma correlação direta entre o benefício e o voto. O que ele mostra é o resultado eleitoral nas regiões mais e menos dependentes do programa. E o recado político está aí: o gesto clássico de ampliar o valor na reta final não produziu efeito mensurável entre o público que, em tese, seria o mais sensível a ele.
O aumento foi o primeiro do atual mandato. O piso passou de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro — alta de 15%, correspondente à correção pela inflação desde junho de 2023, quando o programa voltou a se chamar Bolsa Família. O benefício médio deve sair de R$ 675 para R$ 777, com pagamento a partir deste mês. Em 2022, Jair Bolsonaro havia feito movimento semelhante e mais agressivo: elevou o então Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 (50%), por meio da PEC apelidada de “Kamikaze”. O acréscimo de R$ 200 foi pago entre agosto e dezembro daquele ano. Lula manteve os R$ 600 ao assumir.
Nas cidades de alta dependência, o bloco “outros candidatos” também encolheu: de 17% em 2018 para 5,04% em 2022 e 4% em 2026, sinal de polarização, não de adesão renovada ao benefício. Esse grupo de municípios respondeu por 14,4% dos votos válidos; as cidades de baixa dependência (menos de 25% de beneficiários), por 59,1%.
Fora desse núcleo, o movimento foi parecido. Nas cidades de baixa dependência, Bolsonaro tinha caído de 53,6% em 2018 para 50,3% em 2022 e voltou a 53,9% com Flávio em 2026. Lula subiu de 20,1% para 40% entre 2018 e 2022 e recuou para 37% agora.
No primeiro turno, com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro teve 47,03% (56,1 milhões de votos) e Lula, 45,16% (53,8 milhões). Os dois vão ao segundo turno em 25 de outubro. A abstenção foi de 21,8% (33,4 milhões), a maior já registrada em primeiro turno.
O cientista político Danilo Medeiros, da UFMG, resume o limite da jogada: o Bolsa Família, sozinho, não garante voto. Para ele, o aumento às vésperas da eleição é tentativa de cativar e consolidar eleitorado — e, ao mesmo tempo, a prova de que esse voto não está garantido. “Se o voto de quem recebe o programa estivesse garantido para determinado candidato, não teria motivos eleitorais para mexer no benefício.” Com o tempo, diz Medeiros, o programa passou a ser visto mais como direito do que como favor, o que reduz o espaço para premiar quem o reajusta na boca da urna.
O resultado nas cidades mais dependentes do Bolsa Família indica exatamente isso: o aumento populista do valor, feito a poucos dias do voto, não segurou nem ampliou o apoio entre os próprios beneficiários.

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