
Documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) expõe que uma advogada que faturava R$ 9 mil mensais em sala compartilhada em Goiânia recebeu R$ 11,5 milhões da J&F e da JBS, em dezembro de 2023. Segundo reportagem do Estadão desta segunda-feira (27), Maisa de Maio Lima Marciano repassou R$ 3,5 milhões deste montante recebido para Paulo Humberto Barbosa, dono da holding que comprou cotas do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, no Resort Tayayá. Além disso, advogada repassou R$ 6,9 milhões ao BK Bank, investigado por suspeita de ligação com uma facção paulista.
O escritório da advogada contratada pelas companhias dos irmãos Joesley e Wesley Batista recebeu R$ 8 milhões em 15 de dezembro de 2023 da JBS. No mesmo dia, o Coaf identificou o repasse ao BK Bank. E, três dias depois, a J&F, que controla a JBS, pagou outros R$ 3,5 milhões. E este valor foi repassado pela empresa da advogada, no mesmo dia 18, ao dono da PHB Holding.
Ministro Dias Toffoli (STF), e o Resort Tayayá – (Foto: Rosinei Coutinho/STF | Sam Pancher/Metropoles)
Paulo Humberto Barbosa já advogou para a JBS. E, em 21 de fevereiro de 2025, sua holding comprou as últimas cotas da empresa da qual Toffoli é sócio, no resort Tayayá, no Paraná. O ministro chegou a confirmar o negócio com entre a PHB e a Maridit Participações, de sua família, após investigação da Polícia Federal revelar pagamento de R$ 35 milhões via fundos usados pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Em dezembro de 2023, quando houve repasses milionários para Maisa Marciano, o ministro Dias Toffoli suspendeu a multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F com o Ministério Público Federal (MPF). O pedido da defesa da companhia alegou irregularidades no processo decorrentes da Operação Spoofing, que apontou conluio acusatório entre o MPF e a Justiça Federal, para condenações no escândalo do “petrolão” investigado na Operação Lava Jato.
Elos e suspeitas
Além das cotas adquiridas pela PHB, o Fundo Arllen, ligado a Vorcado, comprou em 27 de setembro de 2021 as primeiras cotas da Maridit no resort paranaense. E a revelação dos negócios levaram o ministro a deixar a relatoria do caso Master, no STF, em investigação sobre a maior fraude financeira da história do Brasil.
Paulo Humberto Barbosa reagiu com irritação à reportagem do Estadão: “Estou doido para processar vocês. Essa informação de vocês é falsa, fraudulenta. Vai você e o gerente do banco para a cadeia. Vou fazer questão de colocar o senhor na cadeia. Moleque! Vá para o quinto dos infernos”.
Em março, a revelação de outro repasse da J&F, de R$ 25,9 milhões, para a PHB, levou Toffoli a se pronunciar, reforçando que o negócio da Maridt foi feito sem participação da companhia dos irmãos Batista, “exclusivamente com a PHB Holding”. E o ministro ressaltou que todas movimentações financeiras estão declaradas às autoridades.
O BK Banking foi apontado na Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, como suspeito de favorecer crimes do PCC por atuar com as chamadas “contas bolsão”, que embaralha dinheiro de diversos clientes e dificulta o rastreamento das origens dos recursos. A movimentação suspeita da fintech atinge R$ 17,7 bilhões e envolveria exploração de jogos de azar, venda de combustíveis adulterados e fraudes metrológicas na venda de combustível.
Ao Estadão, o BK disse não integrar a relação comercial entre seus clientes e terceiros, negou receber e enviar recursos em seu nome para a empresa mencionada. “Todas as transações processadas por meio de sua plataforma são devidamente identificadas e registradas nas contas individualizadas dos clientes, com origem e destino dos recursos, garantindo elevados padrões de transparência e rastreabilidade”, disse a nota do BK Bank.
A JBS e a J&F informaram em nota que os pagamentos ao escritório de Maisa Marciano se referem a produtos ou serviços jurídicos prestados e comprovados.
“A empresa [JBS] não dispõe de informações sobre movimentações financeiras desse fornecedor para terceiros. A Companhia aguarda que a reportagem esclareça qual a conexão entre suas operações e as transferências de recursos relatadas”, disse a JBS, ao Estadão.
“A J&F mantém auditorias independentes que certificam e confirmam a governança e a retidão dos processos internos. Todo pagamento realizado pela J&F se refere a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos”, manifestou-se a J&F, também em nota.
O Diário do Poder solicitou à assessoria de imprensa do STF um posicionamento do ministro Dias Toffoli sobre a reportagem. E publicará eventuais esclarecimentos. O espaço segue aberto para todos os citados pela reportagem.
Créditos (Imagem de capa): Foto: Divulgação / Grupo J&F/27/04/2026 13:41 | Atualizado 27/04/2026 14:26
