O deboche é a pólvora dos salões. Nada é mais explosivo. Tenaz, altivo, fossa dos afoitos, todo mundo quer ser bom nele, mas escondido, o que o diminui; ser bom de deboche é salvo-conduto, dizem, para ser temido.
Quando calha de ser cozido brando, à espreita de azo para o bote, um olhar ou dizer debochados ferem entre risos. Batem duro, fundo e chegam longe, pois só viajam de ida.
Na essência, o deboche supera a fofoca e se apossa da inveja. Do ciúme, despeito e recalque faz pouco caso. Metido a besta, parece não conhecer quem se atreva a desmoralizá-lo.
Quem debocha pertence à estirpe dos fingidos. E quem são eles, há quem nomeie algum? Mansos, anchos de fel e bile, de longe já deixam claro, "não sou de fingir, falo mesmo a verdade sempre, não aprendi a mentir pra mim mesmo, dotô." Não conspiram nem sabotam, nunca.
Acontece, contudo, uma coisa chata, por inexplicável e impossível de ser varrida por sob um Qom ou Kashir safávida: nem todo fingido almeja chegar a debochado, mas não há quem mais o aplauda. Leites entre si.
Teoria irritante. Então vamos decair à prática virtuosística, do tipo inocente, casta, solta por engano num descuido elegante, quase símio:
"Que piada é maior que a vida, exceto a deles?". Obrigado o muar a se render. Aí, só tréplica à altura ou diplomata sôfrego podem evitar a charanga da troca de tapas, ou carapaças. Assim, ao invés de sofreá-lo, que nosso devaneio ganhe rédeas soltas, como o "Rih" de Karl May.
Chega de atirar a oitava pedra. Transmudemo-nos no oposto, incorporemo-nos em debochados-alvo. Quantas mil formas existem de nos fazer sentirmo-nos diminuídos, despidos de mérito, valor e indignos de respeito, por obra de atos e palavras filhos do deboche alheio?
Quando se paga adiantado por um serviço porco. Quando se é tangido de sua vez ou lugar sem maiores satisfações. Quando se debica às nossas costas, o sabemos, até que ao longe ainda ecoam os reptos mordazes, "aquilo é uma vadia", "como um pé-rapado desses ainda volta aqui?"
Sentiu a instabilidade do trinitrotolueno, do TNT impossível de deglutir? Quando foi o penúltimo pouco-caso com que nos trataram, que, por último, evoluiu para o deboche desabusado?
Nem sempre se escreve para contribuir. Mas jamais escreva sobre o que é sério em tom de deboche. Nunca mais nada mais lhe será atribuído.
Se suas palavras não merecerem de ninguém sequer uma tratantada, um remoque aziago ou pastiche cruel, isso é algo que pode até vir a ser consertado. Mas em outra, não nesta grande piada que é a vida.

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