Carlos Pedro Macena
Motivação - Não foi eu que matei ela não, delegado. Morreu porque quis, de tanto ser bocuda. Cansei de avisar que ia dar m... grande, de derramar penico, ficar me esculhambando na frente da geladeira vazia, da botija de gás oca, gritando na frente dos meninos apontando as panelas penduradas, os dois menorzim chorando de fome. Não deu outra. Agora taí, ela destripada, eu sem olho de tanto apanhar - mas parou de chover.
* - Chega, enjoei de aplauso falso e babação encomendada, só fiz a obrigação policial designada, popular. Indivíduo cobrindo a mulher de porrada, três tentaram e não conseguiram acabar com o tendepá. Foi só um tiro.
* - É mesmo? Quer dizer que seu primo foi preso segunda antes do almoço porque estava passeando com mulher e filho domingo à tarde, os dois viram uma carteira de couro perdida, caída entre a calçada e o meio-fio da avenida beira-mar, cataram e deram um baculejo, saíram os dois dementes com os cartões de crédito de posto em posto, abastecendo, comprando picolé, sem saber que tudo pertencia a um oficial da Base Aérea, e seu primo, detido numa boca-de-fumo, quis levantar o corró da Central contra o juiz na audiência de custódia? Vai gramar no 470.
* - "Autista, seu filho, infelizmente, grau quatro, temos condição não de atender." A mãe é branca azeda, catarina enjeitada, última a sobrar dum ventre cansado. Sou preto Dongiol, desde antes dos Sexagenários. Com catorze anos me encangalharam com Frogoió. Puxar burro-de-carga atéo talo de cerâmica em Pomerode. Emprenhei a galega antes do Natal. Alegria fugiu esmagada pela escola - "autista e preto". Serenei, esperei anoitecer, juntei folha seca, galho quebrado, toco de tronco, papel jogado fora, coisa que mais sobra em escola, tarde da noite até as brasas relampejaram. Nem orfanato, nem degredo. Nem escola.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a de nosso portal.
Fonte/Créditos: Carlos Pedro Macena
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