Um entregador de aplicativo que precisava calcular o preço de ir ao banheiro. Essa é uma das imagens centrais de Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador, livro do chinês Hu Anyan, lançado no Brasil pela editora Record.
A obra é uma coletânea de relatos sobre os 19 empregos em diferentes cidades do país, e expõe as condições de trabalho na base da cadeia logística que sustenta o comércio eletrônico chinês.

Do blog ao best-seller
O livro surgiu de um blog criado por Hu durante a pandemia para registrar o dia a dia em ocupações de baixa remuneração. O projeto ganhou alcance inesperado e as publicações foram compiladas em um volume que se tornou best-seller na China.
No Brasil, a obra chega como um retrato pessoal do funcionamento interno de um setor que movimenta cidades como Pequim, onde capacetes coloridos de entregadores dominam o trânsito e mercados físicos mal conseguem sobreviver à concorrência das plataformas digitais.
“Só depois da publicação, quando comecei a ser questionado sobre isso, passei a refletir mais sobre o tema. Pessoalmente, vejo o livro como um memorial centrado nas minhas experiências profissionais. Talvez algo entre autobiografia e documentário social”, disse Hu à Folha.
Contas que não fecham
Entre os relatos, Hu descreve jornadas superiores a 70 horas semanais, ausência de benefícios trabalhistas adequados e salários insuficientes para cobrir despesas básicas. O autor detalha ainda um sistema em que os entregadores respondem financeiramente por problemas nas entregas — em um episódio, ele registrou uma perda de 1.000 yuans, cerca de R$ 750.
A lógica de remuneração por tempo, que transforma pausas em prejuízo, está entre os aspectos mais detalhados do livro: “Como meu minuto valia meio yuan, ir ao banheiro me custava 1 yuan, mesmo que o sanitário público fosse de graça, porque eu gastava dois minutos. Almoçar levava 20 minutos — metade deles só esperando a comida ficar pronta —, ou seja, 10 yuans. Se um prato feito custasse 15 yuans, o custo total do meu almoço seria 25 yuans, um luxo que eu não podia me dar”.
O autor também narra períodos de trabalho sem remuneração como condição para obter uma vaga em empresas de entrega.
O que os clientes desconhecem
Hu afirma ter se surpreendido com o desconhecimento dos consumidores sobre as etapas manuais que ainda compõem a operação logística. “Alguns leitores ficaram chocados ao descobrir que eu trabalhava no turno da noite separando encomendas em uma empresa de logística. Eles não sabiam que esse tipo de trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas”, relatou.
A obra não se restringe ao trabalho de entregador. Além de Pequim, Hu descreve passagens em Xangai, onde atuou em funções variadas, como auxiliar em lojas de conveniência e na venda de bicicletas. Em todos os relatos, o denominador comum permanece o mesmo: exaustão física e emocional combinada a baixa remuneração.
“O tipo de pessoa que eu era dependia mais do ambiente em que eu estava do que da minha natureza. Na verdade, já naquela época eu percebia que a situação no trabalho estava me transformando aos poucos. Eu ficava mais impaciente, mais irritado, menos responsável”, escreveu Hu.
Fonte/Créditos: Redação O Antagonista 3 minutos de leitura20.04.2026 18:21comentários 0
Créditos (Imagem de capa): Hu Anyan
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