
Blefe, pressão ou recuo na retórica belicista? Depois de ordenar a retirada de pessoal não essencial da base militar de Al Udeid, no Catar, "em resposta às tensões regionais", o presidente dos Estados Unidos declarou ter sido informado por uma "fonte segura" de que as "execuções" pararam no Irã. "O massacre no Irã está parando. Parou... E não há plano para execuções", afirmou Donald Trump, ao ser questionado sobre planos de atacar o regime de Teerã. "Estou certo de que, se isso ocorrer, todos nós ficaremos muito chateados. O que chegou até mim é que não vão executar ninguém", acrescentou o republicano.
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Horas antes do discurso de Trump, o Judiciário iraniano tinha anunciado julgamentos "rápidos" de manifestantes. Havia a expectativa de que Erfan Soltani, 26 anos, fosse executado ainda nesta quarta-feira (14/1). A Anistia Internacional pediu aos aiatolás que "suspendam imediatamente todas as execuções". O destino de Soltani é incerto.
Adversários de Teerã, os governos de Arábia Saudita, Omã e Catar reforçaram os canais diplomáticos com Washington para demover a Casa Branca de uma iniciativa bélica. Abbas Araghchi, chanceler iraniano, assegurou que o regime teocrático islâmico tem "total controle" dos protestos. "Após três dias de operação terrorista, agora há calma", afirmou.
A organização Iran Human Rights (IHR), sediada em Oslo (Noruega), anunciou que 3.428 manifestantes foram mortos e 10 mil acabaram detidos. Pelo menos 100 militares também morreram em confrontos — alguns deles foram sepultados nesta quarta-feira.
Kamran Teymouri, ativista de direitos humanos curdo iraniano e membro da ONG Hengaw, colocou em xeque a declaração de Trump. "Ele diz coisas controversas e atacou instalações nucleares iranianas durante negociações com o regime. Talvez isso faça parte de sua operação de desinformação", afirmou ao Correio. "Trump muda de decisão de tempos em tempos, é uma tática. Um ataque é uma forte possibilidade, pois o próprio presidente disse que o regime cruzou uma linha vermelha."
"Imprevisível"
"Com o presidente Trump, nada é claro. Ele continua tão imprevisível como sempre. Mas considero o risco de conflito como perigosamente alto", admitiu ao Correio Ali Vaez, especialista em Irã do think tank International Crisis Group. Ele explicou que os vizinhos do Irã temem que mesmo um ataque de proporções limitadas os coloque em meio ao fogo cruzado. "Isso aconteceu com o Catar, em junho, quando Israel e EUA atacaram o território iraniano. Essas nações também temem que, se os americanos partirem para um ataque direto, isso possa transformar um país de 90 milhões de habitantes em mais um Estado falido, com instabilidade, radicalização e fluxo migratório intenso para seus territórios."
O estudioso de Harvard lembrou que regimes autoritários quase sempre reclamam, falsamente, controle sobre os protestos. "No Irã, 'controle' significa repressão pesada, prisões em massa, blecautes de internet, mobilização das Forças Armadas e das milícias Basij — grupo paramilitar subordinado à Guarda Revolucionária. A transformação dos protestos em grande revolta depende de três fatores: da continuidade das manifestações; da expansão para setores-chave do Irã (funcionários da indústria petrolífera e do setor de transportes, professores e comerciantes); e de fraturas entre a elite e o regime iraniano", disse.
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Fonte/Créditos: Por Rodrigo Craveiro postado em 15/01/2026 05:50
Créditos (Imagem de capa): (crédito: Atta Kenare/AFP)

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