
Lago na caverna em São Desidério (Bahia). Cavidade poderá ser protegida como compensação à supressão de outras cavernas na mesma região. Foto: Alexandre Lobo.
De tamanhos diversos e riqueza exuberante, as cavernas se destacam como habitats deslumbrantes cujo reconhecimento ainda é pouco compreendido. No entanto, uma iniciativa feita por pesquisadores de mais de dez países busca elucidar a importância destes ambientes subterrâneos para a manutenção da vida na Terra.
Em estudo publicado na revista científica Biological Reviews, cientistas elaboraram um inventário que detalha todos os serviços de ecossistema associados às cavernas. Estes serviços são categorizados dentro de três grupos, que incluem serviços de Provisão, Regulação e Manutenção, além de Serviços Culturais. Ao somar estas três frentes de atuação, os pesquisadores identificaram que ao menos 68 de 90 serviços ecossistêmicos são fornecidos pelas cavernas – cerca de 75% do total.
Ao considerar os serviços ecossistêmicos para cada grupo de atuação, os autores do estudo identificaram que os ambientes de caverna atendem a todos os serviços culturais. Enquanto isso, eles também atendem à 82% dos serviços de Regulação e Manutenção, e 63% daqueles relacionados aos serviços de Provisão.
“Queríamos organizar um conhecimento que já sabíamos, mas que ainda estava muito restrito ao meio espeleológico, isto é, ao universo de quem trabalha com cavernas”, disse Rodrigo Lopes Ferreira, professor e pesquisador do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea da Universidade Federal de Lavras (CEBS/UFLA), e coautor do estudo. Ele reforça que os resultados foram surpreendentes, ao considerar a diversidade e qualidade dos serviços ecossistêmicos identificados.
O conceito de Serviços Ecossistêmicos evidencia como a vida humana depende dos demais seres vivos do planeta, e de que forma a biodiversidade e os recursos naturais agregam valor econômico e bem-estar. O trabalho conduzido pelos cientistas mostra uma ampla gama de serviços providos pelos ecossistemas subterrâneos. Alguns habitantes exclusivos de cavernas, a exemplo do fungo Penicillium roqueforti, são essenciais para produção alimentícia – neste caso, do queijo roquefort. Outras potencialidades destes ambientes incluem a realização de práticas culturais e o turismo de natureza. Em outubro, o ICMBio publicou o Censo de Cavernas para promover o turismo sustentável nas Unidades de Conservação federais.
Um alerta para a conservação
O trabalho conduzido pelos pesquisadores acende o alerta para a proteção adequada dos ecossistemas subterrâneos. Os autores destacam que diversas atividades oferecidas pelos ambientes cavernícolas estão ameaçadas por fatores como desmatamento, contaminação dos lençóis freáticos por agrotóxicos, além do depósito irregular de lixo nas cavernas. No Brasil, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav) também enfatiza os desafios atrelados à mineração. Afinal, quase 44% das cavernas registradas no país (11.397) estão localizadas em áreas pleiteadas pela mineração.
Fonte/Créditos: Vinicius Nunes · 25 de fevereiro de 2026
Créditos (Imagem de capa): Foto: Alexandre Lobo.


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