[00:09, 12/11/2025] Carlos Assunção: AACP - "Catártico"
(voltamos a apresentar)
Episódio anterior: batemos o carro no finzinho da tarde de sexta, assim desmaterializando, "no damn chance", nossa fuga para a. casa de campo dos meus contrassogros em Itapevi, até domingo.
Olha o combinado que moiô: sexo selvagem onde desse, manhãs de ócio, tênis (tinha entre 21 e 25, acho, jogava de Go a hóquei no gelo, paraolímpico mas jogava), a dois, in love. Tudo menos aquilo, a car crash. Well...
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"Meu bem guiava bem, beirava o audaz. Foi imprudência, menos que imperícia. Tipo de bobeada fora de questão se aquela trapaça da sorte rolasse hoje, cinco lustros depois."
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"Prouvera seguíssemos desde então a namorar acima e abaixo, afora e arriba ruas, becos, praças, pontes, serras, veredas desse Brasil, só noix doix, o rádim, um olho no gás o outro também, na deliciosa linha, "quem tá dirigindo, nêga, se ouvi perguntarem quanto falta pra gente chegar a Jataí, Pouso Alegre, Nanuque, Torres, Vilhena, Cambuí, Aquidauana, Pirenópolis, Guarapari, Itapipoca, Campina Grande, S. Pedro D' Aldeia, Aquiraz, Capão da Canoa, Paúba, Jalapão ou no hotel?"
"Desmascarados, assumimos. Seus pais davam-se ares de fausto e fumos de nobreza, à sombra do casamento mega "blue chip", então recente (corria ou 1983 ou 1988), da irmã maior, com um Gekko man carioca da facção, digo, do ramo de seguros, que garantia uma piscina por andar, na Barra. Atlântico Sul. Rapaz de futuro, decretei ("trabalha demais aquele meu genro", ouvia sussurros) quando cubiquei o rack do obcecado: pick-up Technics strobo, Akai de rolo 4000DB, Kenwood power, caixas B & Olufsen, não houve tempo pra mesuras, mas que manjava de r'n'b o Roderick Usher da Sernambetiba doutrora, no doubt".
"Voltando à vaca fria, e ao Brooklin, explico contra o quê se persignavam, dado nosso furor: a filha caçula, em vez de mirar-se na Rosa de Hiroshima de fausto da irmã, bandear-se de vez para os braços daquele pé-rapado cabeça-chata, judeu apátrida míope, no limite capaz, sabedores do fluido juízo da filha, de a emprenhar." Copiou?
Desgraçadamente, em sua aflição "bourgeoise" ignoravam o que decidiu tudo."
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"Vivaz caudatário do "savoir-vivre" inato ao Augusto e, da Tereza, tributário da têmpera de Toledo, temida alhures, o Forrest Jr. aqui só viu os fatos por si precipitarem-se."
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"Ao ser recebida à porta de pássaros floridos para um antianiversário arranjado às pressas, D. Tereza fez jus à fama que a precedia. Pegou e..."
P. S. Cansamos. Mas não cedemos.
[02:13, 12/11/2025] Carlos Assunção: SOBRE TRATANTES, TAPETES E TNT
O deboche é a pólvora dos salões. Nada é mais explosivo. Tenaz, altivo, fossa dos afoitos, todo mundo quer ser bom nele, mas escondido, o que o diminui; ser bom de deboche é salvo-conduto, dizem, para ser temido.
Quando calha de ser cozido brando, à espreita de azo para o bote, um olhar ou dizer debochados ferem entre risos. Batem duro, fundo e chegam longe, pois só viajam de ida.
Na essência, o deboche supera a fofoca e se apossa da inveja. Do ciúme, despeito e recalque faz pouco caso. Metido a besta, parece não conhecer quem se atreva a desmoralizá-lo.
Quem debocha pertence à estirpe dos fingidos. E quem são eles, há quem nomeie algum? Mansos, anchos de fel e bile, de longe já deixam claro, "não sou de fingir, falo mesmo a verdade sempre, não aprendi a mentir pra mim mesmo, dotô." Não conspiram nem sabotam, nunca.
Acontece, contudo, uma coisa chata, por inexplicável e impossível de ser varrida por sob um Qom ou Kashir safávida: nem todo fingido almeja chegar a debochado, mas não há quem mais o aplauda. Leites entre si.
Teoria irritante. Então vamos decair à prática virtuosística, do tipo inocente, casta, solta por engano num descuido elegante, quase símio:
"Que piada é maior que a vida, exceto a deles?". Obrigado o muar a se render. Aí, só tréplica à altura ou diplomata sôfrego podem evitar a charanga da troca de tapas, ou carapaças. Assim, ao invés de sofreá-lo, que nosso devaneio ganhe rédeas soltas, como o "Rih" de Karl May.
Chega de atirar a oitava pedra. Transmudemo-nos no oposto, incorporemo-nos em debochados-alvo. Quantas mil formas existem de nos fazer sentirmo-nos diminuídos, despidos de mérito, valor e indignos de respeito, por obra de atos e palavras filhos do deboche alheio?
Quando se paga adiantado por um serviço porco. Quando se é tangido de sua vez ou lugar sem maiores satisfações. Quando se debica às nossas costas, o sabemos, até que ao longe ainda ecoam os reptos mordazes, "aquilo é uma vadia", "como um pé-rapado desses ainda volta aqui?"
Sentiu a instabilidade do trinitrotolueno, do TNT impossível de deglutir? Quando foi o penúltimo pouco-caso com que nos trataram, que, por último, evoluiu para o deboche desabusado?
Nem sempre se escreve para contribuir. Mas jamais escreva sobre o que é sério em tom de deboche. Nunca mais nada mais lhe será atribuído.
Se suas palavras não merecerem de ninguém sequer uma tratantada, um remoque aziago ou pastiche cruel, isso é algo que pode até vir a ser consertado. Mas em outra, não nesta grande piada que é a vida.
Fonte/Créditos: Carlos Assunção

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